domingo, 21 de abril de 2013

As Cartas - Parte II





As cartas - Parte II


Ao chegar em casa, Amanda acomodou os livros em um canto da estante, e ficou olhando as lombadas antigas. Eles tinham pertencido ao seu avô, e Dora os guardara com muito carinho durante todos aqueles anos. Nem sequer permitia que tocassem neles. De repente, lembrou-se de uma tarde em que ainda eram crianças, e ela, a menorzinha, após mexer no armário da mãe enquanto ela tinha saído, encontrou os livros, pegando um deles para rabiscar. Quando Dora chegou em casa, ela levou uma surra inesquecível, e Bárbara, a mais velha, que tinha ficado responsável por olhar as irmãs menores, ficou de castigo por uma semana. 

Pensou: "Será que meus rabiscos ainda estão aqui?"  E zombeteiramente, disse em voz alta: "Mamãe! estou mexendo nos seus livros! venha me pegar!" Riu daquele pensamento. Ao puxar o segundo livro da estante, ele escapuliu de sua mão, e vários papéis amarelados - alguns, dentro de envelopes caíram ao chão. Ao verificar os outros livros, Amanda encontrou antigos cartões postais - alguns datando dos anos 20 e 30 -, mais fotografias, e mais cartas.Viu que algumas tinham sido escritas à caneta tinteiro, tão antigas... eram cartas de seu avô à sua mãe. Começou a lê-las, e viu que o conteúdo era formal, as emoções, contidas. Haviam sido escritas durante as viagens do avô. Apenas mandavam notícias. Guardou-as; pensou que as irmãs gostariam de lê-las. 

As cartas que estavam envelopadas - algumas lacradas - não tinham remetente. Dora não as enviara. Abriu a primeira, e reconheceu a caligrafia rebuscada da mãe. Falava de um dia angustiante; falava de seu pai:




"Como fazê-lo compreender que eu não o amo? Se ele me toca, eu só consigo me encolher. Mas como dizer a ele, após anos de casamento, que eu quero deixá-lo? E para onde eu vou? Nunca trabalhei, não tenho um lugar para onde ir, nem ninguém que possa me ajudar. Se ao menos eu não tivesse me afastado tanto das minhas amigas! E tudo por causa dele. Não queria que eu saísse, que eu tivesse amigas, e eu fui levando... os cuidados com as crianças que não paravam de nascer e crescer, a casa, as tarefas... a vida foi passando, e quando vi, estava velha! 
Às vezes eu penso que deveria ter me tornado freira."

Amanda se perguntou se deveria continuar lendo aquelas cartas, que na verdade, eram como diários. Mas lembrou-se que a mãe estava morta, e continuou. Uma das cartas tinha sido escrita anos antes de Amanda nascer:

" Hoje ele passou pelo portão e sorriu para mim de novo. Ergueu a aba do chapéu. Ele é tão galante que tenho medo de fazer alguma loucura. Tão bonito, e o perfume que fica depois que ele passa... e sinto que não estou ainda tão velha, e que se alguém me olha daquela forma, é porque eu ainda existo. Depois, vem uma das meninas me chamando, e meu coração se quebra, pois sei que eu preciso cuidar delas, não posso deixar as minhas filhas, que não tem culpa de nada..."

Sua mãe tivera um amor platônico! Quantas coisas mais ela não sabia sobre a vida daquela mulher? Foi abrindo os envelopes e lendo as cartas apaixonadas de sua mãe para o estranho que passava, cartas que nunca tinham sido entregues. Descobriu que ele tinha sido mais que um simples amor platônico, e que talvez tivesse representado uma tábua de salvação para Dora, em momentos muito difíceis de sua vida. O tal homem, cujo nome nunca era mencionado nas cartas, fora amante de sua mãe! Entre sentimentos confusos, amanda continuou lendo aquelas cartas, e descobrindo todos os segredos que a mãe guardara durante todos aqueles anos...




"Tivemos nosso momento de amor. Tinha que acontecer! E eu não me importei com o que os vizinhos poderiam pensar, não liguei para nada... as meninas estavam na escola, durante a tarde, e convidei-o para entrar. E ele entrou, e aconteceu, e eu nunca, em toda minha vida, me senti tão bem e tão completa, e foi tão bonito e tão maravilhoso que eu acho que nunca mais vou conseguir deixar que meu marido me toque de novo. E de hoje em diante, se ele quiser, eu vou abrir as portas para ele, e mesmo que ele nunca queira me assumir, para mim o que ele me dá já é mais do que bastante; ele me faz sentir viva de novo, ele me dá esperanças, ele cura a minha alma. E eu não me importo com mais nada, as meninas terão sua mãe, eu terei minha vida."

Amanda levou a mão à boca, como a encobrir o escândalo daqueles momentos furtivos que sua mãe vivera.  Meu Deus! Ela não conhecia aquela mulher... lembrava-se da mãe nos últimos dias de vida, já velha e doente, os olhos sem brilho entre as pálpebras enrugadas, o ar doce e conformado de quem sabe que seu fim estava chegando, a voz pequena, como a de alguém que sabe que suas palavras já não tem mais peso nos ouvidos de quem as escuta. A mãe que conhecera não era aquela mulher apaixonada das cartas.

Ela passou a madrugada perdida naquelas cartas, caminhando entre aquelas linhas. O marido chegou em casa, eles jantaram, falaram do dia, e ele foi dormir, e Amanda voltou para as cartas.


Um comentário:

  1. ISSO ACONTECEU COMIGO SABIA ANA?
    NÃO A MINHA MÃE, MAS UMA PESSOA MTO INTIMA DAINHA FAMILIA, FIQUEI SABENDO DE UMA PESSOA ASSIM. QUE TEVE UM PASSADO QUE NUNCA IMAGINAVA TER TIDO, FOI UM SUSTO MAS ENTENDI O LADO DELA TBM.

    VOU CORRER PARA A PARTE 3. BJS

    PATTY

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