domingo, 21 de abril de 2013

As Cartas Parte III - Final





As Cartas - Parte III


"Nós tomamos uma decisão que eu não sei se terei a coragem de assumir, pois a minha vida não é só minha, eu tenho as meninas, eu tenho a sociedade para dar satisfações. Ele quer que eu vá embora com ele, e eu sei que é a coisa que eu mais esperava ouvir na minha vida. Ele me ama. Mas ele não quer assumir as meninas, também, elas são filhas de outro homem, ele quer começar sua própria família. Não sei se tenho coragem. Mas eu preciso dele. Ele me deu um tempo para pensar. 
Mas ele já deixou claro, que se eu quiser ficar com ele, devo deixar tudo para trás, esta casa, esta história de vida, meu passado para trás, e recomeçar tudo com ele. Olho nos olhos dele e sinto que nunca mais serei a mesma depois de tê-lo conhecido, pois ele despertou alguma coisa em mim que estava morta: e é meu amor próprio, minha auto estima, minha vontade de ser e de viver. Agora eu me sinto capaz de enfrentar o mundo. 
Queria que as coisas ficassem assim para sempre, mas ele me deu um ultimato, eu preciso decidir."

E Amanda já sabia qual tinha sido a decisão da mãe, mas continuou a abrir os envelopes e ler as cartas:

"Descobri que estou grávida de novo. E não é do meu marido, não é de Carlos. Estou grávida dele, carrego um filho dele. Não sei como ele vai reagir quando eu contar, e agora eu preciso confessar tudo para Carlos, pois já não fazemos nada há tanto tempo que ele vai saber que o filho não é dele. Não sei como essa história vai acabar. Agora eu penso que jamais deveria ter me envolvido com ele, eu amo minhas filhas, eu fui egoísta... mas é tarde demais."




De repente, Amanda sentiu seu coração acelerar; ela acabara de entrar naquela história! Mas... então Carlos não era seu pai! Toda a sua vida era uma mentira, nada do que sabia sobre si mesma era real... tudo estava bem claro,agora: a maneira complacentemente indiferente com que o pai a tratava, enquanto demonstrava pelas outras um amor quase apaixonado; os presentes de aniversário que ele uma vez 'se esqueceu' de comprar. A bondade fria, a quase piedade que via nos olhos do pai quando ele a olhava. Os carinhos dela que ele não conseguia suportar por muito tempo, afastando-se quando ela se aproximava, mas não sem antes afagar sua cabeça meio-sem jeito, dando aquele sorrisinho indecifrável que agora ela compreendia: mágoa.

"Contei tudo a ele. Carlos parece estar quebrado ao meio. E eu o quebrei, eu! Mandei as meninas para a casa de minha irmã para conversarmos. Achei que ele ia me matar, me bater, mas ele apenas sentou-se e respirou fundo, puxando todo o ar à nossa volta, me sufocando com sua tristeza. Depois, ele me disse que nunca mais tocaria em mim, e que se eu quisesse, poderia arrumar as malas e sair. Só quis saber o nome dele - do seu rival - e eu disse. Depois ele saiu, desapareceu a tarde toda, e eu tive medo. A minha barriga já está aparecendo, e eu levo um filho que é fruto de pecado. Pode ser fruto de uma tragédia. Como fui irresponsável! Agora as minhas atitudes pesam, e a única coisa que eu posso fazer, é lamentar pelas minhas escolhas erradas, pois vou embora desta casa, e nunca mais verei minhas filhas."

Após uma pausa, a carta continuava:





"Ele voltou, falou-me que tinha conversado com seu rival e me disse que eu não tinha mais motivos para ir embora. Perguntei o que ele tinha feito, ah, me Deus, o que ele fez? Mas Carlos disse que o meu 'namorado' tinha arrumado as malas e partido, assim que ele lhe contara que eu estava esperando um filho dele. Assim, e enquanto me falava essas coisas, ele me olhava de uma maneira fria, os olhos injetados de vingança. Enquanto eu me tornava água e me derretia na frente dele, meus veios se infiltrando no assoalho desta casa para o resto da vida, tornando-se raízes de uma vida que eu não queria mais, ele me dirigia aquelas palavras... eu acabei, estou no fim. Ele foi embora. Afinal, não me amava... jamais fui capaz de conquistar o amor de alguém. Nunca fui nem serei amada. Agora, é esperar esta criança nascer."

Amanda deixou escapar um soluço, e as lágrimas jorraram aos borbotões. Mas ela não conseguia odiar a mãe;seu amor por Dora tinha sempre sido tão grande, tão abrangente e cheio de perdão e de justificativas para a sua indiferença por ela... pensou em Carlos, o homem que ela acreditara a vida toda ter sido seu pai, e de coração, perdoou-o. Ele a criara com todo o amor  que fora capaz de sentir por ela, a filha de outro. Jamais tinha sido brusco ou rude, apenas não sabia o que fazer com ela, como conviver com ela, pois sempre que a olhava - ela agora compreendia - via a traição de Dora. 

A única coisa que a incomodava naquela história toda, era o fato de saber que Dora não a amara de verdade, vendo nela a pedra de tropeço que a  impedira de mudar sua vida, como tanto desejara.



O dia amanhecia,  entre cores douradas e rubras. Segurando uma enorme xícara de café, Amanda estava à janela, vendo a beleza exuberante do novo dia, que parecia zombar de sua tristeza. O que podemos fazer, quando descobrimos que nosso passado é uma mentira, e que não fomos verdadeiramente amados? Pior ainda, fomos apenas tolerados, como um estorvo, uma coisa da qual alguém precisa tomar conta e ajudar a crescer, por pura obrigação ou piedade, quem sabe...

Amanda não sabia mais quem era naquela história toda, pois ela era apenas metade de uma história. Tinha metade do sangue de suas irmãs, que também não sabiam de nada. Como elas reagiriam quando soubessem? Será que ainda gostariam dela? Olhou o relógio: sete da manhã. Não ia trabalhar, não tinha condições. Inventaria uma desculpa qualquer. Não se importava.

O telefone tocou; era Bárbara, sua irmã mais velha. 

-Oi, querida. Te acordei?
-Não, Bárbara. Nem fui dormir esta noite.
-Precisamos conversar. Também não dormi.

De alguma forma, pelo tom da voz da irmã, Amanda sentiu que ela sabia de tudo. Afinal, pelas contas que tinha feito mentalmente, Bárbara tinha treze anos quando aquilo tudo aconteceu. Impossível que ela não tenha percebido nada. Amanda testou o solo:

-Fiquei sabendo de umas coisas.
-É, eu sei.
-Como você sabe?!
-Carla me telefonou e disse que você tinha ficado com os livros antigos do vovô. Daí, achei que à essa altura, amante de livros como você sempre foi, já teria achado as cartas. Eu as achei antes que mamãe morresse, já na fase terminal da doença. Pensei chegar a tempo e queimá-las antes que as lessem, mas não pude ir. Tive reuniões que me prenderam aqui. Então pensei que o que tivesse que ser, seria.

Amanda ficou em silêncio. Bárbara podia ouvir sua respiração.

-Agora eu sei porque eles nunca me amaram...
-Não diga isso, Amanda! Jamais. Mamãe amava muito você. Papai também, ele a aceitou como se fosse dele.
-"Como se fosse." Mas tratando-me como seu eu não fosse. Ele sempre foi tão frio comigo, e mamãe, tão distante!
-Não sei se ajuda, mas eu ouvi uma conversa entre eles, certa vez. Você tinha uns dois, três anos. Ele olhava para você, enquanto mamãe a alimentava, e eu - juro - ouvi-o dizer que jamais pensou que poderia amar tanto assim uma criatura quanto amava você. Depois, ele olhou para mim, dizendo: "Amo você e suas irmãs também."
-Você está dizendo isso para me consolar!
-Não, eu juro que é verdade. E mamãe sorriu para ele, pela primeira vez em anos. E ele estendeu a mão sobre a mesa, segurando a dela. Senti que a perdoava. 
-Ele jamais a perdoou. Não poderia!...
-Ele a perdoou, sim. Pense nos anos que se seguiram, Amanda! lembra-se daquelas viagens à praia, durante as férias? Éramos tão felizes!

As memórias afloraram na mente de Amanda, e ela lembrou-se dela mesma e de suas quatro irmãs, Carla, Teresa e Lídia  adolescentes, enquanto Bárbara já era adulta, e ela, apenas uma criança. Lembrou-se dos risos. De repente, veio-lhe à cabeça uma cena da qual já se esquecera há muito tempo: os pais de mãos dadas à beira d'água, olhando o mar. Juntos.




-Amanda, a gente sempre tem a mania de focar no que foi ruim. Mas pense bem, e verá que fomos uma família unida e feliz. Somos! Você jamais será menos do que nossa irmã querida.

A tarde estava fria, e Amanda saiu para dar uma caminhada pelo parque. Ligara para o trabalho e pedira férias. Sentou-se em um dos bancos, e ficou olhando o chão enfeitado pelas folhas coloridas de outono. Estava com quase quarenta anos de idade, e sentia-se como uma adolescente em plena crise existencial. Seu casamento não ia nada bem - admitia, por sua própria culpa, pois não tinha investido muito nele. Era emocionalmente distante, assim dizia seu marido. Nem sabia se ainda o amava...  Às vezes, os sentimentos se modificam quando são deixados lá fora sozinhos. Um vento frio açoitou-lhe o rosto. 

Voltou para casa, e preparou um café. Sentou-se no sofá, ligando a TV e enroscando-se em uma manta. Acabou adormecendo.

Despertou minutos depois, e entre as pálpebras entreabertas, avistou sob a poltrona um outro envelope. Levantou-se de um salto para pegá-lo, e de repente, pensou se deveria ou não abri-lo; já tinha tido emoções demais naqueles últimos dias. Guardou-o dentro de um livro. Nunca mais lembrou-se dele.

*   *   *




Anos depois, após seu dolorido divórcio, numa tarde em que se sentia especialmente miserável, Amanda olhou-se no espelho, e sentiu-se muito velha. Estava sozinha em casa. Há alguns dias não falava com suas irmãs. Cada uma tinha seus próprios problemas.  De repente, pareceu ter ouvido a voz da mãe dizendo: "A vida não é nenhum mar de rosas, mas a gente precisa aprender a nadar." Lembrou-se da carta. Correu para a estante, derrubando no chão todos os livros. Sentou-se no tapete, abrindo-os um a um e sacudindo-os freneticamente, até que, finalmente, um envelope amarelado - a última carta, a que não lera - caiu no colo dela. Abriu-a:



"Minha querida filha Amanda, 
Decidi escrever-lhe esta carta para você ler nos momentos difíceis. Talvez um dia você se sinta muito triste, como estou agora, e queira alguém com quem partilhar seus sentimentos, e não haja ninguém em volta - como agora não há para mim. Enquanto escrevo, você me olha da sua cadeirinha, enquanto leva colheradas de comida à boca - errando a trajetória da maioria delas. Você sorri, e parece tão contente em ser deixada assim, livre para sujar-se à vontade. Tão inocente! Sabe, eu a amo demais, assim como às suas irmãs. Mas cometi muitos erros, erros que eu espero, vocês nunca fiquem sabendo, pois eu morreria de vergonha do que fiz, ah, deixa isso pra lá... só quero que você saiba o quanto eu a amo.
Seu pai também a ama muito, e mesmo com aquele jeito distante dele, tem um coração de manteiga - o mais bondoso coração que eu já encontrei na minha vida, e olha, eu quase o joguei fora! Nunca faça isso, Amanda, dê valor às pessoas que ama, Às suas irmãs, e se um dia você se casar, ame a pessoa que estiver do seu lado, dê valor a ele, deixe ele saber como se sente, e nunca, mas nunca na vida, se esqueça disso: se a distância começar a surgir entre vocês, faça tudo para construir uma ponte sobre ela o mais rapidamente possível, ou então a vida vai acabar separando vocês... a vida ou então os sentimentos confusos e desacertados de vocês, não sei...
Às vezes uma coisa que parece certa pode ser o maior engano da vida da gente. Ficamos só pensando no que poderíamos ter feito de diferente das nossas vidas, e nem nos lembramos de dar valor ao que temos, ao que conquistamos - porque aquilo que temos, seja o que for, é fruto de conquista, mesmo que nos pareça insuficiente, e se não estivermos satisfeitos, devemos lutar para melhorar, e não ficar culpando os outros que estão em volta.
Fugir não é a solução, filha.
Muitas vezes, aquela janela que se abre e inunda de luz as nossas vidas escuras, é apenas uma falácia. Ninguém traz luz à vida de outro, se a própria pessoa não souber cultivar a própria luz. Quando a gente cultiva a própria luz, não cai na armadilha causada pela falsa luz que algum oportunista projeta dentro da nossa escuridão. A gente só consegue ver com clareza se segurarmos a nossa própria lanterna! Ou então, virá alguém que projetará a luz apenas aonde for interessante para eles que nós enxerguemos. Fuja das ilusões da vida: encontre a sua luz!
E eu descobri, a tempo, que a minha luz é você, são suas irmãs e seu pai; esta casa, a nossa família, a nossa vida. Olhe para dentro! Encontre a sua!

Amor, 
Mamãe."



Após ler aquela carta, Amanda chorou todas as lágrimas que vinha tentando conter; chorou pela sua vida desacertada, pelo seu passado desencontrado, pelas suas relações mal-cuidadas. Chorou a noite toda. Mas na manhã seguinte, sentia-se leve, de uma forma como jamais se sentira antes.
Pegou o telefone e ligou para o ex-marido. Ainda havia tempo para refazer sua vida.



2 comentários:

  1. LINDO.
    O PERDÃO, O AMOR. A CULPA, O REMORSO E O VALOR DAQUILO QUE TEMOS AO NOSSO LADO, DAQUILO QUE TUDO TEMOS E MTAS VEZES NÃO DEMOS VALOR.

    ADOREI ANA.

    BJS CARINHOSOS PRA TI.

    PATTY.

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  2. Oi Ana, que lindo e emocionante conto. Como é o ser humano, acrdito que na maioria das vezes, só damos valor de verdade quando sentimos falta de alguem. Quantas vezes não valorisamos o que temos. Valeu a leitura, parabéns!
    Abraços uma linda noite.

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