domingo, 14 de abril de 2013

MACABRA - Parte I




Ela sorria um riso sem alegria, embora aberto e falsamente luminoso, a fim de enganar os mais incautos. Andava pela rua desejando um falso bom dia a todos que passavam por ela. Assim era Amália: um equivocado retrato da felicidade. Abria os braços e acolhia calorosamente - pelo menos, era o que tentava transparecer - as suas vítimas, e quando estas menos esperavam, sugava-lhes o sangue vagarosamente, as unhas sujas dedilhando-lhes  as aortas. 

Amália escolhia suas vítimas conforme o sucesso que estas tinham em algum projeto no trabalho, ou até mesmo, na vida pessoal. Observava e armava o bote, enquanto se aproximava feito a melhor amiga, a incentivadora, a que sempre estava disponível. 

Ela mesma tentava aparentar sucesso. Dizia-se a melhor em sua área de atuação, A Engenharia Construct, onde trabalhava como engenheira chefe, e portava orgulhosamente os prêmios que conquistara durante sua carreira - embora nenhum daqueles prêmios emoldurados na parede de seu escritório fossem realmente significativos. Mas eram suficientes para impressionar os mais desavisados. Apenas os profissionais que entendiam do assunto, percebiam que Amália era uma falácia. 

Fernanda chegou à Construct como uma trainee recém-formada; exatamente por este motivo, Amália não lhe deu muita atenção, pois não via ali nada que pudesse destruir. Ignorava-a solenemente, e nem sequer respondia quando Fernanda a saudava com um 'bom dia' ou 'boa tarde.' Fernanda não compreendia a atitude de Amália, mas também achava melhor não questionar; afinal, ela era antiga na empresa, amiga de Caio, o diretor, e tinha uma carreira de sucesso - Fernanda vira os diplomas nas paredes do escritório de Amália.

O pessoal do escritório, os mais antigos, que já conheciam Amália, mantinham-se longe dela, e tentavam não chamar sua atenção ou brilhar mais que ela, pois já tinham visto as pessoas que ela esmagara serem demitidas da companhia ou saírem por vontade própria, tal o impacto de sua maldade sobre elas e suas vidas íntimas. Ninguém se esquecia de Salete, a secretária que cometera suicídio após uma demissão por justa causa. Havia especulações de que papéis importantes da companhia tinham sido encontrados dentro de sua bolsa, e que ela estaria passando informações para a empresa concorrente. É claro, a denúncia havia sido feita por Amália, e todos desconfiavam de que as mesmas eram falsas; mas como ignorar as evidências? Lá estavam os papéis, dentro da bolsa de Salete, dias depois da companhia concorrente lançar no mercado um projeto que tinha sido feito por um dos engenheiros da Construct. 

Também ainda eram frescas as memórias do que acontecera com  Dara, uma das engenheiras contratadas pela firma há dois anos. Era firme e arrojada, apresentando projetos maravilhosos; mas além de ser uma ótima profissional, era uma linda mulher, que logo caiu nos encantos de Caio, o presidente da Construct e   atraente cinquentão divorciado. Os dois começaram a namorar, o que foi suficiente para despertar o sinal de alerta de Amália. Havia uma vaga para o cargo de engenheira chefe, que Amália vinha desejando há tempos, e agora que Dara estava tendo um relacionamento com Caio, Amália sabia quem seria a escolhida; precisava agir rápido. 


Aproximou-se de Dara, tornando-se sua melhor amiga. Solícita, ajudava-a nos projetos, e oferecia-se para fazer horas extras a fim de auxiliar a 'amiga.' Ficou sabendo que Dara frequentava a mesma academia de ginástica que Paulo, um dos trainees contratados à mesma época que Dara,  mas cujo contrato estava vencendo, e já tinha sido determinado que ele não seria contratado definitivamente pela empresa. Paulo era um metrossexual declarado: cultivava o físico, era vaidoso e gostava de de achar-se irresistível. Pesquisando melhor, Amália descobriu que Dara e Paulo haviam tido um rápido relacionamento no passado, mas que Dara o havia deixado por causa de sua imaturidade e egocentrismo. Mas aquela informação foi o bastante para que ela arquitetasse seu plano.

Durante dias, passou a observar Paulo cuidadosamente, e percebeu em conversas, que ele era uma pessoa fútil e ambiciosa, tanto quanto incompetente para atingir seus objetivos. Assim, combinou de almoçarem juntos, e Amália ofereceu-lhe dinheiro - uma boa quantia - para que ele concordasse em ajudá-la. Estava tudo planejado; em um dos serões com Dara, Amália oferecer-lhe ia um café com um pouco de sonífero, e depois, alegando não sentir-se bem ,  iria embora mais cedo; assim que ela saísse, Paulo entraria no escritório (vazio àquela hora) e tentaria simular cenas de sexo com Dara, que semi-dopada, não poderia reagir, enquanto Amélia fotografaria as cenas.

Dito e feito: no dia seguinte, as fotografias apareceram no computador de Caio, que demitiu Dara e Paulo imediatamente, dando à Amália o tão almejado cargo. Os colegas de trabalho desconfiavam mas não tinham como provar nada, e assim, ficavam longe dela. Alguns - os mais fracos, aproximavam-se de Amália por medo e tentavam mostrar-se amigos. Ela fingia aceitar-lhes a amizade, e o limitado grupinho almoçavam juntos. De vez em quando, Amália tratava de conseguir a um deles uma pequena remuneração extra, algum prêmio ou promoção insignificante para mantê-los fiéis. 

E assim, Amália dominava a todos, mas sem que este domínio fosse explícito. Caio confiava nela cada vez mais. Nada acontecia na Construct Engenharia sem que Amália ficasse sabendo, aprovasse ou reprovasse. Quando caio viajava, deixava a empresa aos cuidados dela - para desgraça dos demais funcionários.
Durante uma reunião, Fernanda, a nova estagiária, apresentou uma opinião sensata contra um dos projetos de Amália. Provou, com argumentos irrefutáveis, o porquê do projeto não poder dar certo se feito daquela maneira. Apesar da fúria ao ouvir Fernanda ser elogiada por Caio, Amália agradeceu seu empenho e pediu-lhe mais detalhes sobre o que Fernanda sugeriria para salvar o projeto. Ouviu com atenção, e agradeceu novamente. Entre os funcionários, olhares significativos eram trocados.

Após a reunião, Amália vomitou no banheiro, enquanto chorava de ódio: "Como aquela novatazinha se atreve a me contrariar? E o pior de tudo, é que ela está certa... mas desmoralizou-me diante de Caio e de todos! Ah, ela vai pagar!" Assim, lavou o rosto com água fria e saiu, de cabeça erguida, sorrindo, como se nada tivesse acontecido.

Convidou Fernanda para ajudá-la no projeto, e ambas passaram a trabalhar juntas. Mas Fernanda já tinha sido prevenida a respeito de Amália. Alguém deixara um bilhete anônimo em sua mesa. Passou a observar, e com habilidade, conseguiu, durante as happy hours, que os colegas lhe contassem algumas das maldades que Amália fizera. Assim, preparou-se com cuidado contra suas investidas...

3 comentários:

  1. Ai meus sais, Ana. Tomara que Fernanda passe uma rasteira na bruxa e a desmascare.

    Ui, to aqui esperando ansiosa a segunda parte!

    bacios

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  2. QUE MEDO DESSAS PISICOPATAS. EU HEIN!

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  3. Gostei! Se puder, me informado da segunda parte

    abraços

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