terça-feira, 5 de novembro de 2013

EVA - capítulo I



Imagem: Christian Schloen




Conheci Eva num final de noite, quando voltava da faculdade. Eu tinha vinte e um anos. Ao abrir a porta de casa, escutei a conversa animada entre minha mãe e suas amigas - era dia de jogo de buraco, e a vez de mamãe ser a anfitriã. Pé ante pé, tentei esgueirar-me escadaria acima, pois não estava nem um pouco a fim de ter que cumprimentar as amigas de minha mãe e escutar as mesmas velhas frases, como por exemplo: "Nossa, como ele cresceu!" E coisas desse tipo. Uma das mulheres tinha a mania de apertar minhas bochechas como se eu ainda fosse um garotinho, o que me deixava bastante irritado, embora eu apenas sorrisse educadamente!




Bem, eu estava no terceiro degrau, quando ouvi os saltos de minha mãe no chão de mármore, e ouvi sua voz atrás de mim:



-Elton! Venha até aqui, por favor, filho. Quero que conheça uma amiga minha!



Bufei de indignação, revirando os olhos, e deixando a mochila nas escadas, virei-me para ela:



-Ah, mãe, eu estou morto de cansado...

-Olha, eu juro que vai ser bem rápido; é que não nos vemos há mais de vinte anos, e gostaria muito que Eva conhecesse você! Por favor...



Ela piscou para mim.



Mamãe era uma mulher charmosa e bonita, e aparentava bem menos idade do que realmente seus quarenta e nove anos. Fruto da genética; minhas tias também eram assim. Não pude resistir ao seu olhar pidão, e respirando fundo, segui-a até a sala de estar, onde um grupo de oito mulheres (contando minha mãe) aguardavam a continuação do jogo, enquanto seguravam suas cartas. Olhei para elas, dando um "Boa noite" bem geral. Os mesmos rostos conhecidos de sempre, exceto por um.



Olhei para a mulher que deveria ser Eva, e fiz uma rápida avaliação: Tinha cabelos curtos e ondulados, de um tom louro-escuro, cortados à altura do queixo, o que lhe emprestava um ar quase infantil. Os olhos castanhos eram claros e vivos, e seu sorriso, uma bênção para quem o recebia: as maçãs do rosto desenharam charmosas covinhas quando ela riu, e suas sobrancelhas arqueadas ergueram-se ao olhar para mim. Vestia camiseta de malha verde e calças jeans escuras, e portava um longo colar de grandes pedras negras e prateadas que chegava-lhe à altura do ventre. Fora este e um par de brincos minúsculos, não usava nenhum outro tipo de ornamento. Nem sequer um relógio de pulso. Também não percebi sinais de maquiagem em seu rosto, ao contrário das outras amigas de mamãe, e ela já mostrava algumas rugas junto ao canto dos olhos e da boca. Não era muito magra - pelo contrário, tinha as ancas generosas e seios grandes, embora a cintura fosse fina. Também não era muito alta, e achei que deveria ter algo entre 1,65 e 1,67 de altura.



Achei-a uma das mulheres mais lindas que eu já vira em minha vida, e acho que apaixonei-me por ela imediatamente. Eu soube que estava perdido assim que pus os olhos nela. Não me incomodava os talvez mais de vinte anos, aparentemente, de diferença entre nós. Eu a queria. E pelo jeito que ela me olhou, percebi que eu tinha chances.



Após as apresentações, enquanto mamãe explicava que elas tinham sido amigas de escola e que perderam contato quando os pais de Eva mudaram-se para a França, levando-a com eles, nós não conseguíamos parar de nos olhar. Eu mal ouvia o que a minha mãe dizia. Lembro-me de ter escutado algo sobre terem se encontrado naquela manhã em um shopping center, e depois, o mundo emudeceu enquanto eu a bebia com os olhos.



Após alguns minutos, vi-me erguendo a mão e apertando a dela, polidamente. Vi os lábios dela se entre-abrirem, e ela me disse "Muito prazer." A palavra "prazer" ficou ecoando em meus ouvidos. Senti que um leve choque percorreu o meu braço quando nos tocamos, e vi o rosto dela corar levemente. Eu não queria largar aquela mão. Fez-se silêncio à nossa volta, e mamãe pigarreou, trazendo-me à realidade cruel de ter que deixá-la. Eva Também pareceu desapontada (ou teria sido minha impressão?).



Finalmente, desejei boa noite a todas, e quando cheguei à porta, olhei para trás, e Eva ainda tinha os olhos presos em mim. Naquela noite, custei a dormir, pois só pensava nela. Imaginava mil cenas de amor entre nós, nas quais eu a tomava em meus braços e fazia coisas maravilhosas com seu corpo.




Na manhã seguinte, quando desci para o café da manhã,quase engasguei de satisfação ao vê-la sentada à mesa! Mamãe anunciou que Eva seria nossa hóspede por alguns dias, enquanto procurava um apartamento. Eva sorriu para mim, derretendo qualquer tipo de cansaço que pudesse haver naquela manhã maravilhosa. Papai, como sempre, tomou de pé uma xícara de café preto e desejou-nos bom dia, saindo para o trabalho. Após o café, mamãe anunciou que precisava ir até o mercado, e pediu-me que fizesse companhia à nossa hóspede: 


-Você não tem nenhum compromisso, tem, Elton? 


Pensei que nem que eu tivesse um almoço com a rainha da Inglaterra, ou uma conferência com o presidente dos Estados Unidos, eu deixaria de atender àquele pedido de mamãe. Mas achei melhor disfarçar meu interesse, e balbuciei um "Tudo bem" tentando demonstrar indiferença, enquanto levava as xícaras para a cozinha. 


Eva lavou a louça, e eu enxuguei. E enquanto enxugava, pensava que cada xícara poderia ser os seus quadris, e que cada colher poderia ser um de seus braços. Lembrava-me das fantasias que tivera com ela na noite anterior. Olhei-a de soslaio, e a luz da manhã entrava pela janela sobre a pia da cozinha e incidia diretamente em seu rosto honestamente cuidado, sem exageros, sem maquiagem pesada, a não ser um batom rosado muito leve, que eu desejava provar. Queria percorrer cada marca do seu rosto com as pontas de meus dedos, e cheirar aqueles cabelos que pareciam tão macios... Perdido em meus pensamentos, quase assustei-me quando ela me olhou nos olhos e disse: 


-Elton, se você tiver algum compromisso, não se prenda por minha causa. Eu... vou olhar os classificados. Ficarei bem! 


Eu tinha que fazer alguma coisa para que ela não me dispensasse daquela maneira; pensei... pensei rápido. Lembrei-me de um amigo cujo pai era corretor de imóveis, e que no momento, não estava na cidade, mas voltaria dentro de dois dias. 


-Na verdade, dona Eva, eu tenho um amigo cujo pai é corretor. Ele estará de volta à cidade dentro de dois dias, apenas, e se você quiser, posso falar com ele para ajudá-la a achar um lugar. 


Ela pareceu encantada: 


-Oh, sim, claro! Você é muito gentil, Elton! Mas por favor, chame-me de Eva. 

-Está bem, Eva. Mas quero que você saiba que será um grande prazer que você fique aqui conosco o tempo que desejar... o mês inteiro, se quiser, ou... quem sabe, até o ano novo? Ou até o carnaval?... 


Não pude acreditar que eu tinha dito aquilo! Detestei-me por ser tão idiota. Com toda certeza, ela deveria me achar um garoto boboca. Senti meu rosto arder. Abri a geladeira e fiquei olhando para dentro, tentando disfarçar meu embaraço. Mas ela não riu de mim, apenas olhou-me muito séria. 


Fiquei pensando se haveria um marido em alguma parte do mundo. Ela pareceu adivinhar meu pensamento: 


-Sabe, Elton... eu tenho uma filha da sua idade. Seu nome é Ingrid. Acho que você adoraria conhecê-la, mas ela ficou na França, morando com o pai... sinto muita falta dela! 


Naquele momento, terminamos o trabalho na cozinha e fomos sentar-nos na varanda. Era uma linda manhã de dezembro. Havia uma aura de cor diferente, e tudo parecia brilhar de uma forma especial. 


Olhei para Eva, sentada ao meu lado no banco da varanda, e de repente tudo pareceu fazer sentido. Era como se eu estivesse a procura de alguém como ela - não, a procura dela, mais exatamente... era como seu eu a conhecesse de outras eras. E agora que ela estava ali, ao meu lado, eu sentia como se pudesse descansar de uma longa busca. Era uma sensação nova e totalmente estranha. Olhava para sua mão apoiada no assento do banco, ao lado da minha, nossos dedos quase se tocando, e meu coração fremia de vontade de segurar a mão dela. 


Pensei nas garotas que conhecia, e em algumas que eu já tinha namorado, e no quanto durava pouco, pois eu as achava infantis e superficiais. Alguns amigos já insinuavam que eu fosse gay, e eu mesmo também pensava, às vezes, naquela possibilidade, já que não conseguia interessar-me realmente por menina alguma. 


Nós ficamos ali, sentados na varanda a manhã toda. Eva contou-me um pouco sobre sua vida na França e sobre sua vontade de voltar ao Brasil, o que terminou por acrescentar-se como mais um motivo para pedir o divórcio, pois seu marido francês jamais desejara vir ao Brasil, e muito menos, mudar-se para cá. Sentia muito a falta da filha, cuja vida também encaminhara-se na França, país que ela adorava. Eva disse-me ter se cansado da frieza européia, e contou-me sobre uma ocasião em que, durante um jantar, uma senhora referiu-se ao Brasil com desprezo, o que fez com que ela a insultasse veementemente, causando uma situação tremendamente constrangedora. Apesar da tal senhora ter se desculpado (não sabia que Eva era brasileira), toda aquela situação serviu para deixar bem clara a sua decisão de voltar para o Brasil. 


Perguntou sobre mim, e falei-lhe sobre o curso de engenharia que estava apenas começando. Lamentei por não ter nada de interessante para contar a ela, e achei-me vazio e muito distante de Eva. Ela percebeu minha tristeza, e mudou de assunto; perguntou-me sobre música, e descobri que nós dois gostávamos dos Beatles, e que ambos tocávamos violão, e ela, piano. Ficamos de promover uma noite de seresta entre os amigos antes do natal, e rimos muito. 


Perguntei como ela e mamãe se conheceram, e se tinham sido grandes amigas; Eva contou-me que as duas tinham feito odo o ginásio juntas, e que foram amigas inseparáveis naqueles anos. Ainda se corresponderam por algum tempo depois que Eva mudou-se para a França, mas a vida estabeleceu-lhes caminhos diferentes, e elas os seguiram. 


À hora do almoço, mamãe voltou, e nós fomos ajudá-la a levar as compras para dentro de casa. Enquanto pegávamos os pacotes na mala do carro, Eva olhou-me por cima de um deles, e agradeceu-me: 


-Há muito tempo não tinha uma manhã tao agradável na companhia de um cavalheiro, Elton. Obrigada! 


Eu quase flutuei de satisfação! 

(segue...)




4 comentários:

  1. Olá!Boa tarde, Ana,
    gostei do início, as situações e os diálogos jamais se perdem no vago. Daí nasce o realismo, a semelhança com a vida. Muitos "adolescentes" ,igual à Elton, já passaram por tais situações, inclusive, a apresentação das amigas pela mãe:"Nossa, como você cresceu"...o despertar de um sentimento ainda "desconhecido" , os pensamentos e interesse por uma das amigas...aguardando a continuação...
    Agradeço, obrigado, belo dia,beijos!

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  2. Bom dia Ana.. uma coisa que eu não curtia era alguém apertando as minhas bochechas.. ng merece isso rsrs então.. tuas cenas criadas, sempre são bem envolventes.. pois tu sabe descrever com maestria um cotidiano que sempre se apresenta para nós.. e sem dúvida a gente não resiste quando alguém mete o olhar na gente... se for para o bem.. é sempre bem vindo.. mas quando é o oposto nos prejudica demais... abração e um lindo dia pra ti

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  3. Muito bom o teu texto Ana Bailune, é incrível o talento que tens para a escrita-literária. Impressiona-me a perfeita e bem construída descrição física dos teus personagens, como foi no caso de Eva, praticamente pintaste um quadro dela diante dos nossos olhos. Os diálogos inteligentes e que nos prendem a leitura, eles com certeza são parte importante da ação do teu texto que assim se nos mostra interessante. Gostei também da dose bem medida de sensualidade inserida neste teu conto, até eu desejei Eva. Por fim, grata a surpresa do nome de um dos protagonistas deste bem escrito conto,"Elton", meu xará. Se o texto lido na primeira pessoa do verbo naturalmente me fez colocar-me no lugar do menino que o narra, tendo o mesmo nome dele definitivamente me torna "Ele". Continuarei lendo a continuação. Vamos ver oque Eva fará na vida deste pequeno Adão chamado "Elton".

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