domingo, 17 de novembro de 2013

EVA - Capítulo V





Eu e Eva continuamos nosso relacionamento com muito cuidado durante aquela semana, pois por mais que eu dissesse que não me importava com as opiniões alheias e que estaria disposto a assumi-la completamente (como se um garoto de 21 anos que nem tem emprego pudesse fazê-lo), ela me fez prometer que manteríamos segredo. Depois daquele primeiro almoço, só concordava em encontrar-se comigo dentro de seu apartamento, onde tomávamos um pouco de vinho, comíamos, conversávamos e... bem, isto também, a maior parte do tempo. Eva achava que ainda não era hora de revelarmos nosso relacionamento, pois queria que a exposição de mamãe passasse; não pretendia deixá-la triste ou preocupada em um momento tão importante.

Mamãe estava tão ocupada com os últimos preparativos para sua exposição que nem percebeu que as visitas de Eva em nossa casa tinham rareado. Para ela, enquanto eu ajudasse sua amiga e a levasse a passear pela cidade, estava tudo bem. Papai percebeu minha mudança, e certo dia, indagou-me a respeito, mas eu fugi de uma resposta direta, embora desse a entender que ele estava certo: eu e Eva estávamos tendo um caso. Ele pareceu preocupado, mas também decidido a não enfrentar o assunto; talvez pensasse que não passava de uma aventura, e que não valia a pena causar um conflito desnecessário. Papai detestava conflitos e enfrentamentos, fugindo deles o quanto podia.

 Chegou o dia 22 de dezembro, e a exposição dar-se-ia no dia seguinte. Eu me sentia ansioso para acabar com aquele segredo, pois queria poder andar livremente pelas ruas com Eva, sem precisar encontrá-la às escondidas como se estivéssemos fazendo alguma coisa errada. Queria apresentá-la aos meus amigos, e ver a reação deles. Também pretendia mudar-me para o apartamento dela, onde viveríamos como dois namorados, saindo todas as noites, dormindo abraçados em sua enorme cama king size, tomaríamos banho juntos em sua hidromassagem e descansaríamos em sua varanda, de onde veríamos, todas as tardes, o por do sol. Eu imaginava o quanto minha vida mudaria, e o quanto seríamos felizes juntos. A idade de Eva não fazia a menor diferença para mim. 

Pelo contrário; passei a procurar nas revistas fotografias de mulheres mais velhas, e admirar a beleza e a personalidade que havia nelas. Quando caminhava pelas ruas, eu às vezes sentava-me nos shopping centers e passava a observar as pessoas - principalmente, as mulheres mais velhas - enquanto faziam compras ou conversavam.  Algumas meninas de minha idade olhavam para mim, mas elas não me interessavam em absoluto; em compensação, suas mães passaram a me fascinar! Sempre que eu podia, conversava com uma delas, fosse para fingir que pedia informações, perguntar as horas ou oferecer-me para ajudá-las com seus pacotes e bolsas. Elas eram gentis e desconfiadas, economizando sorrisos, mas quando percebiam que estavam sendo cortejadas, elas assumiam um ar de vaidade e satisfação; era como ver uma flor desabrochar de repente.

Apaixonava-me por suas curvas generosas, pelas rugas que emprestavam-lhes personalidade e dignidade, pelas roupas mais discretas e elegantes e, acima de tudo, pela conversa interessante que tinham, mesmo durante os breves cinco ou seis minutos em que eu falava com elas.

Na manhã do dia 23 de dezembro, despertei, e como sempre, ainda de pijamas, ia tomar o café da manhã. Ao abrir a porta do quarto, ouvi vozes diferentes na casa. Parei, para ouvir melhor, mas não consegui identificar o que eles diziam, mas percebi o sotaque estrangeiro, e meu coração gelou! Eram as vozes de um homem e uma mulher. Voltei ao quarto, vestindo jeans e camiseta, e respirando fundo, fui até as vozes. Quando cheguei à porta da sala de jantar, os rostos de meus pais e dois estranhos, uma moça que era a cópia exata de Eva, apenas anos mais jovem, e um senhor elegante e bem vestido, de cabelos grisalhos, olharam para mim. Percebi que a moça era linda, e ele (tive que admitir) também tinha seu charme.

Meu pai adiantou-se e fez as apresentações, os olhos presos em meu rosto, a fim de captar a minha reação:

-Elton, estes são Jean e Ingrid, marido e filha de Eva.

Os dois se levantaram, e hesitante, caminhei até eles, apertando-lhes as mãos. Meu coração parecia que ia sair pela boca  a qualquer momento. Olhava o homem nos olhos e pensava nas coisas que eu e sua bela esposa vínhamos fazendo nos últimos dias. Pensava em quantas vezes os dois as tinham feito, e naquela linda moça que ambos tinham trazido ao mundo. Olhava a mão dele segurando a xícara de café, e imaginava que aquela mão havia percorrido o corpo de Eva muitas e muitas vezes. 

Mamãe matraqueava alegremente, sem nada perceber, falando da maratona que tinha sido decorar o apartamento de Eva, enquanto papai apenas acompanhava a conversa, fazendo um ou outro comentário de vez em quando ou sorrindo polidamente, mas sem tirar os olhos de mim. Eu permanecia mudo, observando. Ingrid também estava calada, e não tirava os olhos de mim.

Os dois falavam português corretamente, embora a moça tivesse um forte sotaque que apenas conferia-lhe ainda mais charme, embora houvesse nela alguma coisa que eu não gostava muito. Jean era simpático, mas não pude deixar de notar que sua camisa estava um pouco larga para seu corpo extremamente magro, e que havia olheiras escuras sob seus olhos; a barba por fazer dava-lhe um aspecto cansado. Achei que talvez ele tivesse perdido peso recentemente, devido à ausência de Eva, e aquele pensamento encheu-me de apreensão. Eu precisava saber o que eles estavam fazendo ali, embora eu já tivesse quase certeza. Atrevi-me a perguntar:

-Então, senhor Jean... acredito que vocês estão aqui para visitar Eva?

Ingrid sorriu, e havia uma certa ironia inexplicável em seu sorriso. Ele me olhou, e seus olhos muito azuis e muito tristes marejaram quando ele me respondeu:

-Não, meu caro. Na verdade, estamos aqui para levar a nossa Eva para casa.

Eu deixei cair a colher, que esbarrou na beirada da xícara, lascando-a. Mamãe olhou para mim, confusa. Eu não respondi, e fez-se um silêncio constrangedor. Mamãe olhou-me, preocupada:

-Filho... você ficou muito pálido de repente! Está sentindo alguma coisa?

Neguei com a cabeça, incapaz de falar. Papai veio em meu resgate:

-Bem, querida, sabe como é... os meninos dessa idade adoram noitadas, e de manhã elas cobram seu preço. 

Mamãe continuou, alegremente:

-Espero sinceramente que vocês voltem a se entender, Jean. E também que mantenham o apartamento no Brasil, e que nos visitem nas férias. Desejo que tudo fique bem. 

Jean sorriu tristemente, respondendo:

-Senhora Graça, vocês são muito gentis. Mas eu e minha filha nem sequer sabíamos que Eva tinha comprado este apartamento. Ainda não deliberamos o que fazer com ele, mas se for desejo de Eva mantê-lo, é claro que concordarei. Também gostaríamos muito de recebê-los em nossa casa em Paris a qualquer momento, e somos muito gratos por cuidarem bem de nossa Eva.

Pelo jeito que ele falava, entendi que ele não aceitaria de Eva um 'não' como resposta, e que faria de tudo para levá-la de volta para a França. Fuzilei-o com o olhar, e desejei ter o poder de fazê-lo desaparecer daquela sala e das nossas vidas. Deparei com os olhos de Ingrid pregados em mim. Ela me olhava insistentemente, e muito séria. Baixei meus olhos, sentindo culpa e vergonha, e também um imenso medo de perder Eva. De alguma maneira, senti que Ingrid sabia

Mamãe continuou tagarelando por mais algum tempo, falando dos lugares que acharia que eles adorariam conhecer no Brasil, enquanto Ingrid e eu trocávamos olhares confusos e significativos. Finalmente, aquele café da manhã terrível terminou, e mamãe sugeriu que eu levasse os dois até o apartamento de Eva, desculpando-se por causa dos preparativos para sua exposição - à qual, certamente, ambos estavam "definitivamente convidados." Gelei por dentro. Felizmente, mais uma vez papai veio em meu resgate:

-Graça, querida, pode deixar que eu mesmo os levarei lá em meu carro. Com certeza, você precisará da ajuda de Elton por aqui.

Respirei fundo, e agradeci meu pai com um olhar aliviado. 

Minutos depois, enquanto o gentil senhor usava o banheiro, mamãe e papai pediram-me que entretivesse Ingrid ("Por que você não mostra a ela sua coleção de discos, querido?") enquanto eles se aprontavam para o dia.

Sentei-me com ela na sala de estar, sem saber o que dizer, e irritado pela intensidade do seu olhar. Uma guerra silenciosa estabelecera-se entre nós,  e eu nem sabia o motivo. Mas ambos sabíamos que jamais haveria nada de cortês ou amigável entre nós. Eu queria quebrar o silêncio, mas nada parecia poder estabelecer alguma comunicação trivial e educada. De repente, de maneira cínica, e com seu sotaque carregado, ela murmurou:

-Você se parece muito com ele. - não pude deixar de perceber o quanto ela estressou a palavra 'ele' no final da frase. Olhei para ela desafiadoramente, e com voz cortante, indaguei:

-Ele quem?

Ela sorriu levemente, enquanto respondia e desfrutava de minha reação como uma sádica desfrutaria de seu torturado:

-O ex-amante de mamãe. É por isso que ela separou-se de meu pai e veio para o Brasil.

(continua...)



3 comentários:

  1. Tenho que ler os outros capitulos... fiquei perdida...

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  2. Menina adorei a ideia de ler aos poucos conforme você posta já estou te seguindo. Vem me visitar sisitricot.blogspot.com.br

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  3. Olá!Boa noite!
    Ana!
    me atualizando... li até este capítulo. No terceiro, o beijo, quarto e quinto, o "relacionamento" e no sexto, que surpresa desagradável( para Elton) o pai e a filha vieram buscá- la....
    Sei que lançou o próximo capítulo, lerei depois. Está muito bom, mesmo!
    Também, estou na correria desenfreada, por isso, o meu off da blogosfera .Fique bem, cuide se bem!Deus te abençoe!
    Belos dias, beijos!

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