terça-feira, 1 de julho de 2014

Como Fazer Amigos - Um Conto Juvenil Parte III








A neblina dissipou-se, e me vi diante da sombra indistinta de um homem. Havia uma luz por trás dele, e por isso, não conseguia distinguir suas feições. Ele foi se aproximando devagar, e quando parou bem na minha frente, reconheci o rosto lindo de meu anjo inspirador: Santiago! Ele foi aproximando o rosto do meu devagarinho, enquanto seus olhos me queimavam. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Uma leve brisa começou a soprar, e começamos a levitar em direção ao céu vermelho de uma linda tarde ensolarada. Quando nossos lábios finalmente se tocaram, a magia foi quebrada por minha mãe:

-Nanda, acorda! São quase onze horas, e você ainda nem arrumou seu armário como prometeu.

De volta à realidade, e ela podia ser bastante brusca. Entreabri os olhos no momento em que a almofada que minha mãe me jogou atingiu meu rosto em cheio. Joguei a almofada para o lado, e ela, de braços cruzados, repetiu:

-Acorda, menina! Hora de tomar café e arrumar seu armário antes do almoço. Hoje é sábado, lembra? Você prometeu.

-Hum... tá bom, mãe. Mas você bem que poderia ter sido mais sutil.
-Estou te chamando há um tempão, Nanda. Anda logo!

Dizendo aquilo, ela saiu. Levantei-me e abri a porta do armário, enquanto gritava  em resposta à minha mãe que não, obrigada, não estava com fome e não ia tomar café da manhã. As minhas roupas, emboladas e jogadas, me aguardavam. Seria uma tarefa hercúlea. Por que as pessoas inventaram os armários?

Comecei a selecionar as roupas em diferentes pilhas: "lavar", "doar" "guardar novamente" e "Jogar fora." A última pilha foi a maior de todas - camisetas e meias tão rasgadas que nem dava mais para usar. Um par de botas de cano médio muito gastas e  furadas na sola. Algumas roupas íntimas que eu teria vergonha se alguém as visse. Duas calças jeans que não me serviam mais. Um vestido de festa que usei no casamento de uma amiga de minha mãe quando eu tinha treze anos.

Na pilha de roupas que ficariam: duas calças jeans ainda apresentáveis, embora bastante desbotadas. Um short tacheado nos bolsos. Algumas camisetas um pouco surradas, mas que ainda davam para o gasto. Dois casacos jeans e um suéter de lã preto com algumas bolinhas. Um casaco azul-marinho acolchoado e pouco usado, quase novo. Dois pares de tênis (percebi que eram os únicos calçados que eu tinha). Três calcinhas e um sutiã ainda apresentáveis (embora eu tivesse certeza de quem ninguém veria minhas roupas íntimas num período de, quem sabe, dez anos). Um vestido de malha e renda, preto e bem bonito, que eu nem me lembrava mais que existia (separei-o para usar no meu encontro com Priscila no shopping). Ele não ficaria muito bonito com meu par de All Star preto, mas era o melhor que eu poderia fazer. Um par de meias arrastão pretas, que separei também para usar com o vestido e o tênis preto. 

Na pilha de roupas para lavar, alguns pijamas e camisolas, roupas íntimas e meias. Joguei a roupa usada na máquina e chamei minha mãe para ver o resultado do meu trabalho. Ela olhou o armário com atenção, passando a mão nos cabides onde estavam penduradas minhas poucas peças de roupa. 

-Você só tem roupas pretas, Nanda...

Me defendi:

-É minha cor favorita. 

-Mas você ainda é jovem, e precisa de um pouco mais de cor. Além disso, está precisando fazer umas compras. Quase não tem o que vestir para sair. 

-Olha, eu não ligo. Para mim está bom assim.

-Mas eu ligo, filha. Há quanto tempo não faz umas compras? Acho que... mais de um ano! As jovens da sua idade vivem comprando coisas novas.

Bufei:

-Mãe, eu a chamei para ver se a arrumação está boa, não para criticar meu figurino.

Ela me olhou, fechando a porta do armário:

-Venha comigo.

Segui-a, revirando os olhos de tanta impaciência, as barras da calça do pijama arrastando no chão do corredor.
Ela me levou até o seu quarto, e abrindo a gaveta da mesa de cabeceira, retirou uma velha carteira de couro onde havia um bolo de notas. Arregalei os olhos, e brinquei:

-Nooossa! De onde vem essa grana toda, mãe?!

Ela riu, e separou uma boa quantia que me estendeu, dizendo:

-Minhas economias, Eu ia pintar a sala, mas acho que você está mais necessitada de cor do que as paredes. Pegue esse dinheiro e faça umas compras. Mas com uma condição: não quero nenhuma peça de roupa preta, ouviu?

-Mas mãe... eu só fico bem de preto! Olha, se for para querer mandar no meu figurino, pode ficar com o dinheiro. Eu não quero.

Saí do quarto pisando fundo, e ela me seguiu:

-Não senhora. Ou compra roupas novas, decentes e de acordo com a sua idade, ou então eu mesma o farei, e você terá que usar o que eu escolher. E ainda vou jogar toda aquela roupa de velório no lixo.

Dizendo aquilo, ela pegou minha mão e colocou o dinheiro na palma, apertando meus dedos em volta dele. Bufei novamente, sentando na cama. Do corredor, ela ainda gritou:

-Aproveite que vai ao shopping hoje, e vê se chega em casa com algumas roupas novas.

Após o almoço, tomei um banho e comecei a me vestir para sair. Achei que seria legal usar o cabelo solto daquela vez, mas ele estava comprido demais; assim, sequei-o e fiz um coque desfiado, que prendi com uma presilha preta. Coloquei o vestido, que minha mãe tinha feito o favor de passar até ficar esticadíssimo, e por cima, uma corrente prateada. Coloquei também meu jogo de pulseiras prateadas, e não usei meu habitual piercing. Calcei as meias e os tênis pretos e me olhei no espelho: até que não estava mal... passei o lápis preto em volta dos olhos, caprichei no rímel e no batom roxo, e agarrando minha tiracolo preta, saí sem que minha mãe me visse, bradando um "Tchau, mãe!" do corredor. 

Cheguei ao café e coloquei o livro de trigonometria sobre a mesa, selecionando um ponto que cairia na prova  para ensiná-lo à Priscila. Pedi um Capuccino e aguardei. Na mesa ao lado, havia um grupo de garotos que conversavam animadamente, tomando Cocas e comendo sanduíches. Nem notaram minha presença, mas eu já estava acostumada. Fiquei estudando a matéria mais um pouco, distraída. De repente, eles fizeram silêncio, o que me fez erguer a cabeça, e logo descobri a razão: Parada na porta do café, estava Priscila. Ela me viu, e acenou para derramando seu sorriso branco-brilhante. 

É claro, estava deslumbrante em um vestido azul-caneta debruado de preto, cujas saias esvoaçantes bailavam em volta de suas pernas bem feitas, torneadas pelas sandálias altas. Os cabelos estavam soltos e parecia que ela tinha acabado de sair do salão. A maquiagem, leve e perfeita, realçava seus traços bonitos e delicados, e notei que tinha pintado as unhas (dos pés e das mãos) de vermelho-vivo. Assim que ela entrou e sentou-se perto de mim, todos os olhares viraram-se para a nossa mesa, ou seja, para ela.

Ela chegou e foi logo sinalizando para a garçonete, pedindo um chocolate gelado com menta, enquanto atirava o livro de trigonometria sobre a mesa (quase derramando meu capuccino e se desculpando ligeiramente pelo evento), e seu perfume caro entrou pelas minhas narinas, causando um pouco de enjoo. Priscila era um verdadeiro furacão. Ela simplesmente me irritava. Deu uma risadinha, e abriu o livro, mostrando-me um ponto no qual tinha muitas dúvidas. Olhei para os garotos da outra mesa; eles conversavam baixinho agora, e notei que falavam sobre ela, que nem se dava conta. 

A garçonete trouxe seu chocolate e foi solenemente ignorada (eu sempre agradecia aos garçons e garçonetes, e achei sua atitude um tanto petulante). Comecei a explicar-lhe a matéria, e ela prestava atenção com boa vontade. Era inteligente, e ao final da explicação, disse que eu seria uma ótima professora. 

Pedimos uma garrafa de água, e eu comecei a explicar a próxima equação, quando ela fechou o livro na minha cara, respirando fundo e dizendo:

-Por hoje chega de trigonometria. Meia hora é muito para um sábado. Vamos fazer alguma coisa, ir ao cinema, passear por aí...

Não gostei daquela ideia. Eu ficaria ainda mais insignificante passeando ao lado daquela musa! Os garotos a olhavam fixamente, e ela finalmente notou a presença deles, mas lançou-lhes um olhar rápido e desinteressado. Levantou-se e pagou nossa conta, apesar da minha insistência em rachar o valor, e nós saímos do café, seguidas pelos olhares desapontados dos meninos. 

Lá fora, ela me olhou de cima abaixo, exclamando: 

-Nossa, nunca te vi de vestido. Ficou... legal!

Eu sabia que ela estava apenas tentando ser gentil. Eu parecia uma bruxa gótica, mas era o que eu era. Dei um meio-sorriso e mudei de assunto:

-O que vamos fazer? Não tenho muito tempo, sabe, eu...

-Ah, deixa disso. Podemos... fazer umas compras!
-Fazer umas compras?
-É!

Lembrei-me do dinheiro que minha mãe tinha me dado e da tarefa à qual ela me submetera: comprar roupas novas. Bem, talvez ela pudesse me ajudar, isto é, se não tentasse me levar às butiques caras nas quais ela com certeza comprava. Quando passamos em frente a um grande magazine popular, meu queixo quase caiu: na vitrine, o mesmo vestido que Priscila estava usando! Ela percebeu minha surpresa:

-Você achou que meu vestido tivesse custado uma fortuna, não foi? Pois é... quando a gente sabe comprar bem e tem personalidade para usar uma roupa, ela sempre parecerá mais cara do que realmente custou.

Tomei aquele conceito como minha lição número um. Não respondi, mas o eco das palavras dela ficaram em minha cabeça. Abri o jogo:

-Minha mãe mandou eu fazer umas compras... não sei o que vou comprar, pois ela me proibiu de comprar qualquer coisa que seja na cor preta. 

Os olhos dela brilharam:

-Legal! Se quiser, eu posso te ajudar. Isso é, não quero parecer intrusa...

-Por mim, tudo bem!

-...Mas se me permite... acho que você precisa de um banho de salão de beleza. Um corte no cabelo, um trato na pele e nas unhas. Sabe, você é uma garota bonita e fica se escondendo atrás desses olhos maquiados de preto!

Olhei para ela, e ela percebeu que tinha ido longe demais:

-Desculpe... mas é verdade, Nanda... olha, se você quiser, o salão é por minha conta. Um pagamento pelas aulas particulares. 

O que eu disse em seguida saiu aos borbotões:

-De jeito nenhum. Quem você pensa que é, para querer me humilhar desta forma?

Ela corou:

-Não, de jeito nenhum eu quis humilhar você, Nanda. Por que você está sempre na defensiva? Só quero ajudar! Você dedicou uma grande parte do seu tempo ajudando a mim, e só quero retribuir!

Não respondi, e fiquei pensando no que ela dissera. parte de mim dizia-me para ir embora e deixá-la plantada lá, falando sozinha; a outra parte pensava nas palavras de minha mãe e em sua promessa de fazer compras para mim e me obrigar a usar o que ela escolhesse. Mas uma outra parte, mais íntima, sabia que Priscila dizia verdade, e que eu era mesmo uma garota que estava sempre na defensiva.

Descruzei os braços, tentando sorrir:

-Olha, me desculpe... tá bom, então. Vamos ao salão. Eu aceito sua proposta, mas teremos mais aulas particulares, OK?

Ela bateu palmas de alegria e excitação.






segunda-feira, 30 de junho de 2014

Como Fazer Amigos - Um Conto Juvenil Parte II




Sustentei o olhar dele o máximo que eu pude, daquela vez. Ele sorriu de um jeito mais atrevido, e senti meu rosto queimar. Odiava aquela minha mania de ficar vermelha feito um pimentão toda vez que um garoto me olhava! No fundo, eu 'sabia' que, quando eles me olhavam, era por mera curiosidade, por causa do meu jeito esquisito. Furiosa, sentei-me ereta na cadeira e virei para frente, tentando prestar atenção na aula de Geografia, cujo professor acabara de chegar.

Na hora da saída, Priscila passou o braço pelo meu como se fôssemos velhas amigas, e senti o olhar das outras meninas queimando-me as costas... no caminho até o prédio onde ela morava, ela ficou falando uma porção de bobagens sobre roupas e maquiagem, e eu apenas escutei. "Nossa, como é vaidosa e vazia," pensei. Mas no fundo, nem percebia o quanto eu desejava ser como ela, popular e linda.

O apartamento de Priscila era grande, arejado, claro e muito bem decorado. Fiquei impressionada com os sofás macios e brancos, em volta de um tapete vermelho felpudo. Admirei os quadros nas paredes que retratavam coisas incompreensíveis, mas que deveriam custar uma fortuna, e os objetos de arte espalhados em todos os cantos. Pensei em minha casa simples e quase nua de ornamentos, e senti que jamais a convidaria para ir até lá. Jurema, a empregada, sorriu-me gentilmente, enquanto pegava a bolsa e a mochila de Priscila para guardar. Pensei no quanto ela deveria ser uma dondoca inútil que nem sequer guardava suas próprias coisas. Depois, Jurema voltou, avisando que o almoço logo estaria pronto. 

Cheguei à janela e desfrutei da bela vista para o parque. A cidade estendia-se aos nossos pés, ou seja, aos pés de Priscila. Lembrei-me da vista do meu quarto: os fundos do quintal. cada vez mais, me invadia um sentimento de inadequação (o que eu estava fazendo ali, afinal?) e um amargor que crescia e tomava conta de mim. Jurema chamou-nos para o almoço, e segui Priscila té uma sala linda e silenciosa, sem janelas, com uma mesa para doze pessoas sobre a qual descia um lustre de cristal que cintilava de tanto brilhar, e sentei-me em uma das cadeiras macias estofadas de veludo azul-caneta. Perguntei pela mãe de Priscila, e notei uma sombra passar-lhe pelo rosto quando ela respondeu:

-Ela está no trabalho, é arquiteta. Minha mãe quase não fica em casa. Chega bem tarde.

-E seu pai?

-Hum... meu pai... mora em outra cidade, sabe. Eles são divorciados. Ele não vem muito aqui, tem outra filha, outra mulher, outra vida.

Não falei nada, mas pensei em meu próprio pai, que eu nunca conhecera, e em minha mãe, que naquele momento estaria trabalhando em seu feio escritório na repartição pública. E começamos a desfrutar da deliciosa lasanha servida por Jurema. Após o almoço, ela me chamou para irmos até seu quarto, um enorme espaço, onde vi sua mochila em uma cadeira ornamentada, e a bolsa que usara na escola, pendurada em um cabide cheio de outras bolsas que pareciam caríssimas. Olhei em volta: sobre a cama com cabeceira de ferro dourada, um colchão estufado de tão macio, coberto por uma colcha rosa-choque e travesseiros e almofadas rosas, azuis, brancos e amarelos. Nas laterias, um par de tapetes brancos muito felpudos onde Priscila com certeza colocava seus pés pela manhã, ao acordar naquele quarto maravilhoso.

As paredes eram rosa-claro, e havia uma cômoda por trás da qual um enorme espelho dominava uma das paredes. Pensei no quanto ela devia passar horas diante dele... Na parede oposta, uma barra dourada para bailarinas, daquelas que só existem nas academias de dança, e Priscila imediatamente tomou posição e começou a alongar-se (apenas para exibir-se para mim). Fiquei olhando para ela, apreciando seus gestos delicados e precisos. Gestos de quem já dançava há muito tempo.

-Eu não sabia que você dançava.

-Faço balé desde os três anos de idade. Bem, com licença um minuto. Vou me trocar.

Dizendo aquilo, ela desapareceu por uma porta estreita, pela qual pude entrever os azulejos brilhantes e muito brancos de seu banheiro privativo. Pensei nos azulejos rachados do único banheiro de minha casa. Minutos depois, ela voltou, usando um vestido de malha largo e confortável - e cor de rosa, é claro. Tinha prendido os cabelos em um coque, e calçava chinelos de salto com pom-pons. Parecia uma diva de cinema. Enquanto eu ia tentando explicar a ela os fundamentos da trigonometria, reparava em suas unhas esmaltadas de branco e bem-cuidadas, e no anelzinho de ouro com pedra vermelha que ela usava na mão esquerda. Envergonhei-me de minhas unhas quadradas e sem brilho, e do meu anel preto de fibra de coco.

Após duas horas, olhei meu reloginho de pulso e disse: 

-Tenho que ir, está ficando tarde. Mas acho que precisaremos de outras aulas.

Ela concordou, desanimada:

-É, eu acho que sim... sou uma negação com números. Mas... antes de ir, me fale um pouco de você, Nanda. Sabe, você é um mistério!

Aquela observação me pegou de surpresa; nunca antes alguém se interessara em saber qualquer coisa a meu respeito, a não ser minha mãe - se eu estava indo bem na escola, se eu estava com saúde, se precisava de alguma coisa - e Ágatha - se eu tinha beijado alguém no final de semana, se eu tinha assistido ao show na MTV. Mas jamais alguém perguntara sobre minha pessoa. Ela percebeu que eu estava embaraçada, e riu:

-Tudo bem, Nanda, só estamos nós aqui. Não precisa falar, se não quiser. Olha, vamos fazer assim: eu falo um pouco de mim, e depois, se você quiser, você fala de você. Tá bom? Bem, eu tenho quinze anos, moro nesta cidade há apenas seis meses, gosto muito de sair, adoro o Justin Bieber e a Avril Lavigne, minha cor favorita é o rosa, já namorei muito, e hoje em dia, estou de olho em um garoto, mas... tá difícil (ela deu uma risadinha), amo dançar, estudo balé, viajo muito, amo natação, e tenho um cavalo... no aras, é claro, e eu o monto nos finais de semana. O nome dele é Charlie. 

Ela ficou me olhando. Pensei nas coisas que ela dissera, e que para mim, nada diziam sobre uma pessoa. Também intrigou-me o fato de ela dizer que estava de olho em um garoto e não estava sendo correspondida. Decidi entrar no joguinho dela, e dar respostas completamente diferentes das suas, apenas para chocá-la e deixar claro que não tínhamos nada a ver uma com a outra:

-Meu nome é Fernanda mas todo mundo ( e não é muita gente) me chama de Nanda, moro aqui desde que nasci, nunca viajei, eu detesto balé, odeio natação ou qualquer atividade na água, minha cor favorita é preto, odeio Avril Lavigne, abomino Justin Bieber e amo Avenged Sevenfold (já ouviu falar? Um grupo de rock pesado), nunca namorei, não estou interessada em ninguém e ninguém está interessado em mim, não tenho um cavalo, mas um cachorrinho vira-latas desde que eu tinha nove anos, e ele não tem nome, eu o chamo de Cachorro. Ah, temos algo em comum: também tenho quinze anos!

Ela ficou me olhando, tentando digerir minhas informações, e de repente, caiu na gargalhada. Aquilo me deixou furiosa, mas finalmente ela parou de rir, e me olhando fundo nos olhos, declarou:

-Gosto de você. Você tem algo que eu gostaria de ter, Nanda: autenticidade. Você é você mesma, e não se importa.

Fiquei pasma, boquiaberta! A princesinha gostava de mim? me achava original? Dizia que não era autêntica? Era a minha vez de rir alto! E eu o fiz. Ela ficou me olhando com seus enormes olhos azuis, deitada de bruços no tapete, o rosto apoiado nas mãos. Olhei para ela de onde eu estava, sentada na beirada de sua cama dourada, e sua posição física inferior a minha deu-me coragem:

-Sabe, Priscila... você é um mistério. Como assim, você não se acha autêntica?

Ela baixou os olhos, passando a mão no tapete:

-Na verdade, eu luto muito para manter minha imagem de garota perfeita, sabe... você não sabe quantas horas eu passo por semana no salão de beleza fazendo unhas e cabelos, depilação, massagens... ou escolhendo as roupas certas. Minha mãe não admite que eu me descuide. Quer que eu pareça sempre perfeita, talvez para mostrar às suas amigas que, apesar de ter sido abandonada pelo marido por ser uma megera workaholic, ela tem tudo sob controle. Vê essa casa perfeita? Ah, eu estou sempre de dieta! 

-Mas nós almoçamos lasanha, se não me engano.

-Porque eu liguei e pedi para Jurema preparar, escondido da minha mãe. Disse que ia trazer uma colega cujo prato preferido era lasanha.

Dizendo aquilo, ela começou a olhar as próprias unhas, muito séria:

-Meu esmalte lascou... droga, preciso ir ao salão. Minha mãe odeia unhas lascadas e esmalte descascado. Ela diz que é o cúmulo do desleixo!

Sentando-se ao meu lado na cama, ela encostou em mim,  e senti seu hálito de chiclete de morango:

-Bem, como é a sua mãe, a sua vida?

Respirei fundo, e percebi que não pensava muito naquilo também. De repente, um sentimento de ternura tomou conta de mim, e comecei a falar de minha mãe:

-Minha mãe se chama Débora. Não conheci meu pai, ele morreu antes de eu nascer. Mas minha mãe tomou conta de tudo o melhor que pode. Não temos uma vida perfeita, mas ela sempre se preocupa comigo, e a gente sai, vamos ao cinema juntas, fazemos compras, vamos ao mercado, ao shopping, à lanchonetes. Ultimamente, agora que você me perguntou, percebo que não tenho conversado muito com ela...

-Talvez porque você está crescendo, e todos os adolescentes odeiam seus pais, é normal.

Percebi que aquilo não era verdade.

-Não, eu amo minha mãe. É que eu ando meio-confusa ultimamente...

Notei que aquela conversa estava ficando perigosa; afinal, eu estava me abrindo para o inimigo! Olhei novamente o relógio, e levantei-me, dizendo que precisava realmente ir, afinal já eram quase cinco horas da tarde e minha mãe logo estaria em casa. 

-OK, então. Quando vamos nos encontrar de novo? Poderia ser na sua casa!

Tive uma reação intempestiva e quase gritei:

-Não! 

Ela ficou me olhando. Me corrigi com uma mentira:

-Não, a casa está em obras, sabe. Muita poeira.

-Tudo bem, então. Podemos repetir amanhã, após a aula?

Pensei no rumo que as coisas estavam tomando; eu, frequentando a casa daquela patricinha metida após as aulas, todos os dias? Ela devia pensar que eu não tinha nada melhor para fazer. Resolvi decepcioná-la:

-Amanhã eu não posso, tenho um compromisso. 

-Depois de amanhã, então?

-Mas é sábado!

-A gente se encontra no shopping. Podemos estudar lá.

-Você acha? Não é muito... barulhento e movimentado?

-Hãhã. Mas tem um café que é bem tranquilo. Nos encontramos no Herald's Café Às duas e meia, então? 

-OK.

Fui para casa me sentindo muito estranha. Eu caminhava e sentia meus passos mais pesados, como se eu fosse uma pata desajeitada, apesar de ser tão magra. Ao passar na vitrine de uma loja, parei e me vi refletida, e meus jeans desbotados e rasgados no joelho de repente me pareceram feios demais. Meu rosto branco, os olhos delineados de preto, o rabo-de-cavalo longo caindo sobe as costas, o piercing perto do olho, tudo me fez sentir como uma esquisita ridícula. Mas aquela era eu! Priscila era a esquisita ridícula, cheia de si, metida e patricinha. Ela mesma me elogiara pela minha originalidade. 

Pensei em Santiago, e no que ele faria se tivesse que escolher entre uma de nós duas. Bem, na verdade, aquela escolha jamais existiria, pois ele nem sequer pensaria duas vezes: ficaria com Priscila, é lógico! Até eu no lugar dele faria a mesma coisa. Era tudo tão óbvio.

De repente, lembrei-me do filme "Carrie, a Estranha." Na história do filme, Carrie, a esquisita da escola, a que nunca se adaptava, foi abordada por um garoto e um grupo de meninas populares que só quiseram humilhá-la em público. lembrei-me dos olhares de Santiago para mim, e em suas tentativas de aproximação, e também no súbito interesse da garota mais popular da escola pela minha pessoa, e pensei que aquilo tudo poderia não passar de um plano sujo. 

(continua...)




domingo, 29 de junho de 2014

Como Fazer Amigos- Um Conto Juvenil - Parte I





Eu juro, não sou uma má pessoa. Nunca fui. Sempre obedeci aos meus pais, procurando ser uma boa filha, obediente e cordata. Tive boas notas na escola, colaborei com meus colegas de classe ajudando-os com as lições sempre que podia, enfim, fui uma boa filha, uma boa aluna e uma boa amiga.

Tudo começou há muitos anos, quando Priscila apareceu em minha vida. E eu juro que tentei ficar longe, bem longe dela, pois tudo naquela menina me incomodava: seus cabelos loiros e ondulados, que caiam fartos até os ombros, e emolduravam um rosto lindo, de bochechas rosadas e olhos azuis-escuros. Seu corpo bronzeado de curvas generosas e carnes firmes e lisas, causava-me asco. Quando ela ria, costumava jogar a cabeça levemente para trás, e seus dentes muito retos e brancos reluziam. Ah, como eu ficava irritada! E para piorar, estava sempre alegre e muito bem vestida. Gostava muito de usar vestidos coloridos que deixavam à mostra as suas belas pernas.

Nunca tive muitas pretensões quanto aos meninos, pois sempre tive consciência de que não nasci com muitos dons físicos... meus cabelos, pretos, lisos e escorridos até a cintura, não brilhavam muito, e por isso, eu sempre os trazia presos em um rabo-de-cavalo. Tinha a pele branca e sem vida, os olhos castanhos mortiços e inexpressivos. Eu não gostava de mim quando era uma adolescente, achando-me insignificante e feia. 

Minhas roupas eram sem-graça, pois era tão magra e sem curvas que fazia de tudo para não chamar muita atenção para minhas formas. Usava jeans rasgados e velhos, tênis e camisetas quase sempre pretas. Tinha também um piercing perto do olho esquerdo. Gostava de usar delineador preto em volta dos olhos, e esta era toda a minha "maquiagem."

 Eu olhava as outras meninas, curvilíneas e esbeltas, com seus seios redondos aparecendo sob as camisetas justas, e depois olhava meu peito praticamente liso e sem protuberâncias, e me perguntava quando chegaria, para mim, a tal adolescência (naqueles tempos, eu tinha quinze anos, mas achava que aparentava ter doze).

Como eu disse antes, procurava não chamar muita atenção e não me interessar pelos meninos da escola, pois tinha certeza absoluta que nenhum deles jamais se interessaria por mim. Até que um novo menino, uma beldade de dezessete anos vinda de outra cidade, começou a fazer parte da minha classe da oitava série. Seu nome era Santiago. Lembro-me da primeira vez que bati os olhos nele: meu coração quase parou, de tanto bater forte! Ele era lindo... alto, moreno, olhos negros e misteriosos, corpo bem torneado e forte, roupas estilosas, e usava sempre uma corrente de prata grossa e reluzente com uma cruz, que chamava a atenção sobre suas camisetas -quase todas pretas ou escuras. Santiago tinha uma motocicleta, e não era de falar com os meninos da classe. Fez amigos mais velhos no primeiro ano, e na hora do intervalo, ficava com eles. Na hora da saída, ele subia em sua motocicleta e ia embora, sem olhar para trás. Às vezes, ele me olhava com um certo interesse, e até chegou a puxar conversa comigo. Acho que gostou do meu jeito meio-dark de ser... mas eu, insegura e com baixa autoestima, tranquei-me dentro de mim, evitando olhar para ele, respondendo suas perguntas com monossílabos e olhando sempre para o chão. Ele tentou algumas vezes, mas acabou desistindo. Ágata, uma das poucas meninas com quem eu conversava, um dia me disse que ele andava fazendo perguntas sobre mim. 

Quando eu chegava da escola, trancava-me no quarto e ia para frente do espelho. Às vezes eu tirava toda a roupa, e desanimada, olhava meu corpo magro e sem graça, desejando ser como uma de minhas colegas. Principalmente, como Priscila. Eu colocava uma música e me deitava no tapete, de olhos fechados, imaginando-me em suas roupas, entre seus amigos, com toda aquela irritante autoconfiança que ela exalava. Priscila passou a tornar-se uma espécie de obsessão para mim; depois de Santiago, era ela a pessoa a quem eu dedicava horas de meus pensamentos. Eu desejava ser como ela, e como não podia, eu a odiava.

Éramos todos colegas de classe, e eu era uma excelente aluna; era comum que os colegas me procurassem para pedir ajuda nas épocas de provas. Um dia, Priscila pediu-me ajuda para a prova de trigonometria. Eu estava sentada em minha escrivaninha na hora do recreio, ouvindo música, quando ela chegou timidamente, sorrindo meio sem-graça, e colocando o cabelo para trás da orelha, inclinou os joelhos levemente:

-Oi, Nanda! Tudo bem?

Eu a olhei tentando demonstrar hostilidade, sem retirar os fones de ouvido, o que a deixou ainda mais embaraçada, mas ela continuou:

-Será que você podia... sei lá... me dar uma ajudinha em trigonometria? Isso é, se não for incomodar muito...

Eu pensei muito bem antes de responder, e fiquei olhando para ela durante algum tempo, tentando tomar uma decisão. Bem, Priscila era uma curiosidade para mim, e se a ajudasse, teria mais tempo para analisá-la melhor e concluir minha teoria de que ela era uma fraude total. Retirei os fones de ouvido e tentei soar um pouco mais gentil:

-OK, então. Onde podemos?...

Ela deu um largo sorriso: 

-Que tal na minha casa depois da aula? A gente podia almoçar juntas. Moro em um prédio aqui pertinho!

-OK. Nos vemos na hora da saída.
-OK! E ... obrigada, Nanda.

Recoloquei meus fones de ouvido, e ela se afastou, acenando-me um 'tchauzinho.'
Eu nem podia acreditar no que acabara de acontecer! A princesinha da popularidade tinha acabado de me pedir ajuda! Ri; quando ergui os olhos, dei com Santiago me olhando fixamente. 

(continua...)





quinta-feira, 19 de junho de 2014

A Terra do Sonho Possível




Era uma vez um reino distante, como tantos reinos distantes que existem por aí em muitas histórias. Seria apenas mais um, não fosse por uma pequena diferença: neste reino distante, todos que nasciam recebiam de presente o direito a um único pedido mágico, que fosse qual fosse, se realizaria. A única condição é que nenhum pedido poderia ser retirado, ou seja: a partir do momento que alguém escolhia determinada coisa, teria que conviver com ela para sempre!

Bem, até o momento, você deve estar pensando o quanto gostaria de viver em um lugar assim! Imaginem só, ter direito a um desejo mágico, fosse qual fosse, e vê-lo realizado num piscar de olhos? Realmente, este reino deve ser um lugar onde todos são felizes...

Mas não é assim que acontece. Porque as pessoas sempre se precipitavam ao fazerem seus desejos, e acabavam pedindo coisas estúpidas; por exemplo, havia um menino de oito anos que pediu que a avó a quem ele tanto amava e que acabara de falecer após anos de doença e sofrimento, pudesse voltar à vida. Ele sempre a vira feliz e sorridente, pois a boa senhora tentava esconder suas mazelas e dores do menino, procurando sempre aparentar estar sentindo-se bem. Assim, quando ela se foi, o menino acreditava que sua avó era uma pessoa feliz e saudável. Quando ela finalmente descansou e acordou no paraíso, livre de todas as suas dores e sofrimentos, mal pode dar dois passos em direção à luz e sentiu-se puxada de volta para um túnel escuro, e despertou novamente em seu velho corpo doente.

Os olhos do menino brilharam de alegria ao rever sua querida avó, e ele confessou: "Que dia feliz, vovó! acabo de usar meu pedido mágico para trazê-la de volta!" Entre espasmos de dor, a avó retrucou: "Você não sabe o que fez, menino... condenou-me a uma eternidade de sofrimentos e dores ao seu lado, e eu o odeio por isso!"

A Grande Lei dizia que aquele que fez o pedido deveria conviver com ele até o final dos seus dias, e durante quase oitenta anos, o menino (que cresceu e tornou-se um velho amargo e solitário, pois nenhuma mulher jamais casou-se com ele devido às imprecações de sua avó) foi obrigado a conviver com sua avó, agora uma pessoa amarga e infeliz, que gemia de dores todas as noites no quarto ao lado do seu, proferindo muitos palavrões.

Como a história deste menino, havia milhões de outras, sobre pessoas que desejaram ter de volta um ente querido, o que fez com que o reino encantado passasse a ser um lugar superpopulado e habitado por muitos seres taciturnos e entristecidos, pois ninguém que tenha visto o outro lado da vida, deseja voltar.

Há também a história do homem que desejou ser rico e famoso; como esta, há milhões de histórias parecidas, de pessoas que se tornaram cantores famosos, dançarinos, mágicos, escritores, etc, e perderam o prumo de suas vidas. Este nosso amigo imediatamente adquiriu o dom da pintura, e passou a pintar quadros maravilhosos que fizeram dele um homem cada vez mais rico, famoso e vaidoso. A mulher dos seus sonhos, não aguentando mais viver sob sua sombra egoísta, acabou por deixá-lo, e ele amargou o resto de sua vida em um mundo fútil e superficial. Até desejou não mais ser rico e famoso, mas aonde quer que fosse, era assediado por repórteres que escreviam mentiras sobre ele e pessoas interesseiras que queriam aparecer como seus amigos.

Algumas pessoas pediam que alguém que não era apaixonado por elas  as amassem. Assim, muitos casamentos e noivados eram destruídos, e às vezes, a pessoa que fez o pedido percebia que o príncipe ou princesa encantados não passavam de rãs e sapos... mas tinham que conviver com eles para sempre. E mesmo tendo como exemplo várias histórias infelizes, as pessoas sempre acabavam achando que com elas, seria diferente.

Pessoas que estavam envelhecendo pediam para voltar a serem jovens novamente, e se esqueciam que isto significava que permaneceriam jovens enquanto seus entes queridos envelheciam e morriam. Estas pessoas tornavam-se imortais, e amargavam uma eternidade dedicada ao arrependimento e à saudade.

Enfim; as pessoas faziam os pedidos mais loucos do mundo, e sempre causavam grandes desastres, pois a maioria dos seres humanos pensava somente em si e em seus próprios desejos, recusando-se a aceitar a vida como ela era - e é assim que ela deveria ser. Nosso reino encantado tornou-se um lugar sombrio, onde seres infelizes competiam uns com os outros e temiam que alguém fizesse algum tipo de desejo destinado a destruí-los - e havia muita gente que desperdiçava seus desejos desejando o mal para os outros.

Mas lá de cima, alguém olhava por aqueles seres egoístas e insensatos, e resolveu finalmente mandar-lhes ajuda. Assim, brandiu uma varinha de condão e decretou que a partir daquele dia, os desejos humanos, concedidos ao nascer, estariam abolidos.

Ao saberem de tal coisa, os seres do reino encantado ficaram indignados, mas com o tempo, descobriram que teriam que aceitar a decisão tomada pelo Ser Superior. Pouco a pouco, com o passar dos anos, o reino foi tornando-se um lugar melhor. Mesmo assim, uma semente atávica descansa na alma de todos os seres humanos, e isto faz com que, até os dias de hoje, desejemos coisas estúpidas, egoístas e impossíveis.





domingo, 8 de junho de 2014

DESVENTURA



"Foi-se o tempo dos poetas tísicos, que morriam aos trinta anos de idade recitando poemas bêbados pelas calçadas da vida, uivando para  a lua, enquanto a amada platônica fechava-lhe a janela na cara!"

Ele não conseguia esquecer as palavras dela, que iam e vinham em sua memória,  ecoando sardonicamente. Pusera todo o seu amor em um pedaço de papel. Seu coração e sangue arrumados em linhas cuidadosamente caligrafadas. Diziam que suas letras pareciam-se com as de uma mulher, e ele caprichou nas letras que introduziam as estrofes, desenhando-as cheias de volteios, fazendo com que o texto se parecesse com alguma coisa antiga. Depois, colocou tudo em um envelope de linho cor-de-champanhe, lacrando-o com um coração de cera vermelha.

O poema falava de um amor tão forte, que transcenderia até mesmo a morte: o amor dele por ela.

Apenas não o assinara.

Deixou-o sobre a mesa dela, no escritório. Ficou de longe, olhando disfarçadamente, coração dando voltas, a fim de estudar sua reação. Ela chegou atrasada, como sempre, os saltos das botas marcando o rítimo seguro e impetuoso de seus passos. Ele ergueu os olhos da tela do computador. Viu quando ela largou a bolsa enorme sobre a mesa, e deparou com o envelope, puxando-o de sob o peso de pedra. Virou-o de um lado para o outro, e sem nenhum cuidado, abriu-o, despedaçando o coração de cera, cujos farelos ela displicentemente pisoteou, ao sentar-se.

Leu o conteúdo. De onde ele estava, só via os olhos dela, indo de um lado a outro da folha, trocando de linhas. Sem pensar duas vezes, ela rasgou o pedaço de papel em dois, jogando-o na lixeira, e disse a frase em voz alta, aquela mesma frase que vinha  martelando-lhe a  cabeça  há mais de uma semana.

Desde então, seu coração frustrado passou a odiá-la. Pensava que ela poderia ter tido mais tato. Poderia não ter rasgado o poema. Ele tornou-se ainda mais taciturno, e sempre que ela sorria, o som de seu riso causava-lhe calafrios de horror. O perfume que ficava no ar quando ela passava, dava-lhe ânsias de vômito. Os saltos de suas botas ecoando pelo escritório quase fazia com que ele tivesse convulsões. 

Às vezes ela vinha até a mesa dele, os longos cabelos presos por um lápis em um coque mal-feito deixando o pescoço fino e alvo à mostra, e perguntava sobre algum documento, mostrava algum relatório ou pedia sua ajuda para resolver algum problema. Ele tinha que fazer um enorme esforço para não pular sobre aquela veia do pescoço dela que pulsava bem perto da linha dos olhos dele, quando ela se inclinava sobre sua mesa. Sonhava com seus dentes cravando-lhe o pescoço, puxando e arrebentando aquela veia saliente que pulsava, pulsava... o sangue se esvaindo, espalhando-se pelo chão branco de cerâmica do escritório, os colegas todos correndo em direção a ela, enquanto ela se debatia, agonizando.

Um dia, ela não apareceu para trabalhar. Alguém disse que ela estava doente. Semanas se passaram, e as notícias não eram boas: ela estava, realmente, muito doente. Foi quando ele descobriu que não lhe desejava a morte: amava-a ainda mais desesperadamente, agora que estava na iminência de perdê-la para sempre. Em sua imaginação, ela estava deitada em uma cama de hospital, chamando por ele, estendendo-lhe os braços enfraquecidos, o rosto, uma máscara de dor. Só ele poderia salvá-la!

Naquela tarde, saiu mais cedo do escritório e comprou um enorme buquê de rosas brancas para dar a ela. Seu coração estava aquecido, pois sabia que, ao vê-lo, ela começaria a recuperar-se rapidamente, pois embora não soubesse, sua doença devia-se ao seu desamor por ela. Assim que ela soubesse que ele ainda a amava, ficaria curada!

Chegou ao hospital e percorreu o corredor que levava ao quarto dela, sorrindo para as enfermeiras, segurando o buquê. Ao chegar na porta, respirou fundo, e quando ia bater, notou que a porta estava entreaberta. Olhou pela greta, e viu um rapaz inclinado sobre a cama dela, segurando-lhe as mãos, sorrindo-lhe tristemente. Viu quando ele beijou-lhe a boca, e ela, apesar de fraca, correspondeu.

Ele voltou para o corredor, deixando cair as flores, e sentou-se em um sofá bem em frente a porta do quarto. Tremia de ansiedade. Esperou durante quase uma hora, até que finalmente, o rapaz saiu do quarto.

Entrou.

Ela dormia, a cabeça inclinada para o lado esquerdo, a veia do pescoço pulsando fracamente. Amor e ódio lutavam dentro dele. Paixão. Fogo ardente. Quem venceria?

Sufocou-a com o travesseiro, e depois jogou-se do décimo andar. Mas não sem antes deixar um bilhete, responsabilizando-a por tudo.

Um policial, ao ler o bilhete, apenas disse: "Não podemos responsabilizar ninguém pela nossa própria loucura."




quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Última Dança


Do alto de sua varanda, ela olhava a rua e o movimento que passava pelo portão de sua casa, sentada em sua velha cadeira de vime. As pessoas que iam e vinham quase nunca notavam sua presença silenciosa e observadora... observadora? Via ela, realmente, alguma das coisas que parecia observar? Não... na verdade, ela olhava e via outras coisas, outro mundo... 

A casa era muito antiga, tendo sido uma das primeiras a serem construídas naquela rua. Tivera sua fase áurea, e reinou sobre todas as outras casas que foram sendo construídas à sua volta. Reinou tão majestosamente, que foi a única que sobreviveu ao progresso. Todas as outras foram sendo substituídas por modernos prédios de apartamentos, mercados, estacionamentos. Sobraram, da antes tão vistosa alameda, apenas algumas árvores. 

Ela morava ali há tanto tempo, que ninguém mais se lembrava dela. Os seus vizinhos sabiam apenas que na casa velha junto ao terreno baldio, morava uma senhora muito idosa, cujo nome ninguém sabia, e cujas compras eram entregues pontualmente às sextas-feiras em sua casa pelo rapaz da mercearia. E já houvera muitos entregadores diferentes ao longo dos anos!

Ela não saía. Tinha uma rotina, porém: acordava, ia até a cozinha preparar seu café preto, que tomava com uma ou duas bolachas, e depois comia uma fruta qualquer; assistia TV quase a manhã toda, depois dava um jeito na casa (um jeito bem sem-jeito); ao meio dia e trinta ela almoçava; geralmente, uma sopa de legumes. Depois, cochilava em sua poltrona por alguns minutos.

Durante o resto da tarde, ela sentava-se na varanda do segundo andar, e observava. Ou fingia observar. Se estava frio, ela enrolava-se em seu xale marrom. Se calor, levava consigo um copo de água.

Mas à noite, ela abria seu velho álbum de fotografias, e eles enchiam a sala! sentavam-se à sua mesa e jantavam com ela; jogavam cartas, tomavam licor, conversavam alto e riam, riam, riam... às vezes, um deles a convidava para dançar, e ambos rodopiavam pelo soalho empoeirado da sala de estar  - que, nestas horas, parecia cintilar de tão limpo.. E ela era jovem novamente. Incansável. E ria, ria, ria...

Um dia, ela não apareceu mais na varanda. O rapaz da quitanda tocou a campainha, e ninguém atendeu. 

Quando eles vieram abrir a porta e procurar por ela, já temendo o pior, nada encontraram. Nem sinal da velha senhora. Apenas um álbum de fotografias permanecia aberto sobre a mesa, e nele, a imagem de uma jovem e linda mulher sendo conduzida em uma valsa. E ela ria, ria, ria...


terça-feira, 27 de maio de 2014

Ausência




 


Quando ela dormia, ele passava horas olhando para suas pálpebras fechadas, tentando adivinhar com quem ela sonhava. Cabeça apoiada no antebraço, acendia a luz fraca do abajur e desfrutava do momento, o único, em que ele tinha certeza de que ela lhe pertencia totalmente.

As coisas não andavam bem naqueles últimos anos. A distância entre eles tornara-se um poço sem fundo, cuja borda alargava-se a cada dia, e ele não sabia o que fazer, como construir pontes que os mantivessem unidos. À noite, após o jantar, assistiam a um filme na sala de estar. Mãos dadas, corações distantes. Ele suspeitava que ela o traía - andava misteriosa e calada ultimamente. Ela nem pensava nada... apenas prestava atenção ao que se passava na tela colorida, totalmente ausente da presença dele.

Alguns laços, mesmo sendo fortes, não resistem a repetidos puxões, ela pensava. E ele já puxara demais. Agora, qualquer coisa que ele lhe fizesse, seria indiferente. Poderia até mesmo estar dormindo com outras mulheres, e ela não se importaria. 

Lembrava-se das vezes em que o seguira no passado, ardendo de ciúmes, e das provas que conseguira recolher da traição dele: Um bilhete meio-rasgado e amarrotado na lata de lixo do banheiro, a tinta da caneta borrada, onde se lia: "...noite muito agradável... vamos repetir... e um número de telefone ilegível com final 43." Lembrou-se de ter ficado horas tentando decifrar a mensagem borrada, e vasculhou o celular dele e o velho caderno de telefones procurando por um número com final 43, mas não encontrara nada. Ele jurou que tratava-se de um dos fornecedores que conhecera em sua última viagem de negócios de quem ficara amigo. Mas quando ela quis saber seu nome e de onde ele era, ele desconversou e mostrou-se ofendido pela falta de confiança dela.

Outra das 'provas' jamais completamente provada, fora um fio de cabelo loiro e longuíssimo no encosto do carro. Ao sentar-se, ela deparou com aquele fio brilhoso e claro contrastando com o forro preto do encosto, e puxou-o devagar, enquanto ele fingia estar mexendo no rádio. Ao perguntar a quem pertencia o fio, ele apenas fez cara de desentendido, dizendo que provavelmente, entrara com o vento pela janela aberta.

Houve também uma ocasião na qual alguém telefonara enquanto ele estava no banho, e ela atendeu seu celular; não disse nada, e uma voz feminina do outro lado da linha repetiu o nome dele três vezes antes de desligar. Ela olhou o número e ligou de volta, mas deu ocupado - e toda vez que ela tentava, mesmo de outros números, dava sinal de ocupado. Com certeza, o número fora desativado. Ele alegou que provavelmente era de alguém tentando vender alguma coisa.

Havia também os perfumes que soltavam-se dele quando ele passava; eram suaves, mas ela conhecia o cheiro dele, e sabia que aquele perfume alienígena não pertencia a ela ou a ele. Ao perguntar quem tinha aquele cheiro, ele encolhera os ombros e fingira lembrar-se de repente que encontrara uma velha amiga de faculdade que o cumprimentara com um abraço. Mas o cheiro às vezes reaparecia, muito suave, quase imperceptível.

Ela não era dada a escândalos e interrogatórios; quando sentia que ele lhe mentia, calava-se e fechava uma porta: distanciava-se, recolhendo-se em um mundinho pessoal do qual ele participava cada vez menos.

Ele tentava abraçá-la, mas ela alegava cansaço ou dor de cabeça. Sempre havia uma desculpa para que ele não a tocasse. Evitava os beijos dele, pois ficava imaginando a quem aquela boca poderia ter beijado, e onde... passou a sentir por ele uma repulsa física.

Ele de nada suspeitava. Perguntava a si mesmo onde errara. Em que momento do caminho ele deixara que ela se afastasse dele? Sempre fora capaz de manejar muito bem as suas escapadas, e tinha certeza absoluta de que ela não desconfiava de nada. Fora discreto, sem faltar-lhe com o respeito que ela merecia.

A verdade é que ele não conseguia imaginar aquela casa sem a presença dela. Todos os seus dias eram vividos por ela. As outras nada significavam. Ela era o significado de tudo o que ele fazia e desejava. Assim, passou a sofrer de pavor: um medo enorme de perdê-la. O medo crescia durante a noite, tomando proporções monstruosas na escuridão. Passou a não mais conseguir dormir, e precisou tomar remédios. Emagrecia a olhos vistos. Só ela não reparava, perdida que estava em seu próprio mundo indevassável onde ninguém poderia feri-la. 

Quando ele tentava falar-lhe de sua dor (mas jamais dos motivos daquela dor), ela ouvia compassivamente, e não respondia; apenas dizia que ele deveria fazer análise. 

Ela deslizava pela casa sem fazer muito barulho, tentando evitar entrar em algum cômodo se ele estivesse nele. Parada à porta, olhava antes de entrar; se o visse, não o fazia. Ele agonizava pela presença dela, a presença que ela retirava a cada dia um pouco mais.

Um dia, enquanto ela arrumava um álbum de fotografias, envolta em lembranças dos tempos em que ambos se conheciam, o telefone tocou. Era alguém de um hospital que dizia que seu marido sofrera um acidente, e que ele estava bem; mas infelizmente, sua filha não resistira aos ferimentos e falecera.

Filha?! 

Ela desligou o telefone em transe. "Ele estava bem." A voz fria da mulher ao telefone não parava de ecoar em sua cabeça.

Ela fez as malas devagar. Antes de sair, olhou para o apartamento vazio uma última vez.

Ela saiu para o ar fresco da avenida onde de repente as buzinas dos carros pareciam música, e os vários tons cinzentos dos prédios e muros pareciam em perfeita harmonia com o negro brilhante do asfalto. Ergueu o rosto para as gotas de chuva e sorriu. Ela estava livre. Ela estava vingada. 

 Ela estava bem.



sexta-feira, 23 de maio de 2014

A Bruxa que Não Tinha Pontaria - um conto de fadas macabro






Era uma vez uma bruxa que vivia isolada em seu velho castelo, no alto de uma colina. Abaixo desta colina, espalhada em casinhas lindas e aconchegantes, vivia a população daquela vila encantada, e também muitos parentes da bruxa.  Ela bem que tivera seus dias de glória, quando saía distribuindo pragas e lançando maldições e indiretas através de falsos sorrisos; mas devido a esta sua mania de espalhar iniquidade aonde quer que fosse, as demais pessoas (mágicas ou não) resolveram que seria melhor se Perpétua (era este o nome da bruxa) ficasse de fora das festas e comemorações.

Um dia, para sua desgraça final, sua linda filha Endora conheceu um belo príncipe, e dele se enamorou. Perpétua tremia ante a possibilidade de ficar só, já que seu marido morrera há muitos anos - dizem que foi de desgosto pela megera na qual sua esposa se transformara após o casamento. Perpétua fez de tudo para impedir o casamento de sua filha Endora com o Príncipe Garboso (este era o nome do príncipe): lançou maldições para que o príncipe adoecesse e não pudesse visitar a filha - o que só fez uni-los ainda mais, pois Endora passou a visitá-lo frequentemente, até que ele curou-se, pois era muito forte; também espalhou calúnias a respeito da reputação do rapaz, tentando desacreditá-lo diante da filha e dos demais membros da família - tática que funcionou apenas temporariamente, pois todos que se aproximavam dele e o conheciam melhor logo notavam que era pessoa íntegra e de caráter incontestável. Tentou chantagem emocional, dizendo à filha que se ela se casasse, sua pobre e velha mãe morreria de desgosto... mas Endora conhecia as artimanhas da mãe, e não deu-lhe atenção.

Enfim, o grande dia chegou! O casamento foi celebrado na igrejinha local, e assistido e comemorado por todos os moradores da vila. 

Perpétua, sentindo-se derrotada, resolveu usar outras táticas para minar o relacionamento de sua filha com o príncipe: fingiu aceitá-lo, e frequentemente, levava-lhe pratos enfeitiçados; é claro, sem o conhecimento deste. Era sempre gentil e sorridente, solícita e muito boazinha. O príncipe, ao alimentar-se das comidas da sogra, sentia-se mal, adoecia e chegava a sentir uma certa repulsa pela bela e jovem esposa; nestas ocasiões, ambos começavam a discutir. Enquanto isso, a "solícita" sogra fingia tentar reconciliá-los, servindo-lhes presentes e seus chás enfeitiçados que só faziam com que os dois brigassem ainda mais! 

Porém, havia na vila uma fada boa que, percebendo a situação, resolveu ajudar o jovem casal: sem que ambos soubessem, ela fez uma magia e quebrou os feitiços lançados pela bruxa. Por que sem que ambos soubessem? Não queria causar uma briga em família, o que seria muito constrangedor. Achou que a velha bruxa acabaria se conformando e aceitando melhor o casamento da filha com o príncipe, conforme o tempo fosse passando e ela tivesse a chance de conhecer melhor o genro.

Alguns anos se passaram, e o jovem casal conseguiu comprar uma bela casa no sopé da colina onde vivia a bruxa Perpétua. Nem mesmo a chegada do netinho derreteu o coração da megera, que sempre que podia, jogava suas indiretas para tentar aborrecer o príncipe e fazer o casal brigar. Seu castelo ia ficando cada vez mais velho, e o vento passava pelas gretas, ditando-lhe amarguras e acentuando sua solidão. O Príncipe Garboso até que tentou relacionar-se bem com Perpétua, mas sempre que tentava, recebia em troca insinuações e alfinetadas.

A felicidade do casal e a maneira como as pessoas da vila referiam-se ao príncipe através de elogios, deixavam Perpétua cada vez mais amargurada e invejosa, embora ela sorrisse e fingisse concordar. Certa noite, enquanto caminhava por seu castelo vazio e deteriorado,  ela tomou uma decisão: faria uma magia muito forte, que destruiria de vez aquele casamento. Sua filha Endora voltaria para casa dentro em breve, e cuidaria dela em sua velhice.

Pensando desta forma, ela pegou um enorme caldeirão e começou a fazer seu preparado: asas de morcego, dentes de dragão, veneno de salamandra, pele de cobra, ovo de lagarto, erva do diabo, cicuta, arsênico, uma pitada de urina de coruja, uma objeto de cada cônjuge (tivera a chance de roubar um pé de meia do genro e um grampo de cabelo da filha) e finalmente, água pútrida do fosso que ficava atrás do castelo. Passou a noite toda mexendo o caldeirão e concentrando seu pensamento em ódio, separação, destruição e maldade. Na manhã seguinte, a bruxa estava tão exausta que caiu no sono ali mesmo, no chão da cozinha, ao lado do caldeirão.

Quando despertou, encheu uma caneca com a poção e foi até a beira da colina, de onde podia avistar toda a vila, e a casa de sua filha lá em baixo, no sopé da mesma. Então, Perpétua respirou fundo, e com toda a sua concentração e força, atirou o líquido em direção à casa onde habitava o jovem casal, mas como fosse muito ruim de mira, acabou acertando uma outra casa próxima, onde moravam suas duas irmãs e cunhados. Resultado: em alguns dias, os dois casais se separaram, e uma de suas irmãs adoeceu e morreu poucas horas após a partida do marido. E sem querer, uma gota da poção caiu sobre seus próprios pés, o que fez com que a bruxa ficasse doente por vários dias.

Mas Perpétua não se conteve: assim que sentiu-se melhor, novamente encheu um balde com o líquido fétido e, numa noite de luar, dirigiu-se ao alto da colina, de onde avistava toda a vila e a casa onde viviam sua filha, genro e neto. Mais uma vez, usou de toda a sua força e concentração e lançou a água do feitiço, mas errou de novo; desta vez, a água caiu em outra casa próxima, que pertencia aos parentes de seu falecido marido. Todos adoeceram e tiveram morte lenta e dolorosa.

A bruxa Perpétua tinha mesmo péssima pontaria! Mas não era mulher de desistir, e novamente lançou a água de seu feitiço (desta vez, usou um barril que ela foi empurrando até a beira da colina, pois achava que assim conseguiria atingir seu alvo). A água respingou em suas mãos, mas ela nem sequer se importou. Ao chegar bem na beiradinha, Perpétua entornou todo o conteúdo do barril, e um rastro fumegante de água fedorenta, negra e viscosa começou a descer colina abaixo. Atingiu várias casas, mas uma pedra acabou desviando o curso da correnteza e impedindo que chegasse até aonde ela desejava. Muitas pessoas, inclusive seus parentes, adoeceram ou sofreram graves acidentes. Outros, viram seus negócios irem à falência, enquanto ainda outros perderam seus empregos ou viram várias espécies de desgraças tomarem conta de suas vidas. Os mais velhos e fracos morreram em poucos dias. E a própria Perpétua também quase morreu daquela vez, pois acidentalmente, derramara boa quantidade de poção em suas mãos.

Ficou aos cuidados da filha por vários dias, até que finalmente, melhorou. Mas nem mesmo a própria desgraça ou a desgraça de seus parentes pode fazer com que o coração da egoísta criatura se abrandasse! E ainda sem poder levantar-se da cama, ela passou a concentrar seus pensamentos todas as noites na direção do jovem casal. Mas o príncipe Garboso era uma criatura forte, e além disso, estava protegido pelo contra-feitiço da fada boa. Assim, suas maldições passaram a atingir a própria filha! A moça começou a definhar a olhos vistos. Emagrecia, e tornava-se cada vez mais taciturna e calada. Frequentemente, chorava sem motivos e sentia uma dor no coração que nenhum remédio conseguia curar. Consultou vários médicos e fez vários tratamentos, mas nada parecia ajudá-la! O pobre príncipe viu-se na incumbência de cuidar da esposa e do filho, o que fez com que Perpétua ficasse ainda mais abandonada.

No entanto, a megera, reunindo suas últimas forças, levantou-se da cama disposta a arrastar o que sobrara do caldeirão até a beirada da colina, a fim de tentar, mais uma vez, atingir seu genro. Mas como ainda estivesse fraca, deixou que uma boa quantidade da água viscosa atingisse sua cabeça, antes de lançá-la na direção do telhado da casa onde viviam seu genro, neto e filha. 

Daquela vez, Perpétua acertou seu alvo.

Porém, a magia negra sempre prejudica aqueles que estão mais fracos e vulneráveis, o que fez com que sua pobre filha Endora fosse atingida em cheio. E assim, ela veio a falecer. 

Foram meses de luto e tristeza na vila. Todos se perguntavam o que estaria acontecendo com sua cidade, pois parecia que ultimamente, uma nuvem negra baixara sobre todos, trazendo dores, desgraças e mortes. A pequena vila tornou-se um lugar triste e ermo. Mas nada se comparava à dor e à tristeza que habitavam o velho castelo no alto da colina.

Finalmente, a consciência de Perpétua começou a doer, e a velha bruxa passou o resto de seus dias vivendo solitária e doente, carregando um peso enorme em seu coração e um arrependimento para o qual jamais encontrou a cura. Compreendeu a extensão de todo o mal que causara a todas as pessoas que a cercavam, inclusive seus parentes, apenas porque cultivara a inveja e o ódio de alguém que nunca lhe fizera mal e o sentimento de posse e  ciúme pela própria filha.

Dizem que o fantasma de Perpétua vaga até hoje nas imediações daquele castelo em ruínas, e seus uivos de dor podem ser claramente ouvidos quando o vento sopra em noites de lua cheia.




domingo, 18 de maio de 2014

Da Casa Morta






Da Casa Morta
um antigo conto, re-escrito

Ela morava em uma casa branca muito bonita, de dois andares, que ficava em uma rua tranquila da cidade. O ano, 1970. Entardecia, e ela, sentada em sua poltrona favorita, via as sombras da tarde que passeavam sobre o bordado que ela confeccionava. O tique-taque do relógio de parede antigo era o único som a quebrar o silêncio sepulcral daquela casa, a não ser pelo ruído de motores de carros que, de vez em quando, vinha da rua. Nestas ocasiões, ela baixava o bordado e olhava pela janela, verificando se era o carro do marido que se aproximava. 

Quando a sala ficou quase totalmente escura, ela suspirou e acendeu a luz. Dobrou cuidadosamente o bordado e enfiou-o no saco junto com os outros bordados e paninhos de croché. Havia também lindas toalhas de mesa e colchas, todas feitas por ela. Todas impregnadas de anos de solidão, tédio e arrependimento pela vida não vivida. Mas é incrível, o quanto sentimentos tão nefastos puderam transformar-se em coisas tão bonitas!

E ela passava assim as suas tardes, em transe, a usar linhas de cores discretas para transformar suas dores em obras de arte. Aos poucos, conforme passavam os anos, a brancura de sua pele imaculada era marcada por leves sulcos, e seus fartos cabelos ruivos perdiam o viço enquanto seus olhos azuis, cansados de grudarem-se aos panos que bordava, iam perdendo o brilho.

Não tivera filhos. No começo, lamentou muito este fato, pois fora criada para ser esposa e mãe, e o fato de não ter conseguido gerar filhos deixava-a com um sentimento de culpa muito forte, uma sensação de inadequação e inferioridade diante das outras mulheres; mas depois que começou a conviver com o marido, deu graças a Deus por não ter gerado nenhuma de suas sementes.

Conheceram-se durante um jantar de família. Ele, filho de um comerciante conhecido de seu pai, logo lhe fez a corte. Rapaz bonito e garboso, encantou-a, e logo estavam casados. Mas o encanto quebrou-se alguns dias após a cerimônia, quando ele revelou sua verdadeira face: um homem ambicioso, mulherengo e frio, que casara-se com ela apenas porque o sogro dar-lhe-ia a oportunidade de expandir seu negócios. Ele saía de casa cedo pela manhã, e só retornava tarde da noite. A única vez em que ela perguntou-lhe o motivo de chegar tão tarde, ele a olhou com desprezo, e respondeu: "Maridos não devem satisfações às suas esposas. Menos ainda quando elas não lhes dão filhos."

Finalmente, ele chegara em casa. Cumprimentou-a com um boa noite seco, e foi sentar-se em frente a TV. Ela serviu-lhe o jantar, e ambos comiam em silêncio, como faziam todas as noites, mas naquela noite, ela puxou conversa; falou do convite que recebera da vizinha para participar de uma feira de artesanato e mostrar seus trabalhos. Ele resmungou com indignação, respondendo que ela não tinha necessidade de virar 'barraqueira' de feira, e que estava proibida de tomar parte em tal evento.

Ela apenas engoliu em seco a última garfada de comida. 

Há anos ele não a tocava. Ela já tinha esquecido o que era ser mulher. Não ligava mais para os telefonemas anônimos, as vozes sussurrantes que lhe diziam que seu marido tinha uma amante, simplesmente porque não se importava mais. Dava até Graças a Deus.

Sua rotina resumia-se em cuidar da casa, conversar com as vizinhas no portão ou convidá-las para um chá à tarde, quando o marido não estava. Também ia ao supermercado, ou assistia TV. E, é claro, tricotava, bordava, costurava.

Um dia, ela se foi. Ainda era uma linda mulher, apesar dos seus quase cinquenta anos. O câncer, cultivado durante anos de ressentimentos, frustrações e arrependimentos, finalmente a tinha vencido.

 Ela, deitada em sua cama, reduzida a pele e ossos,  dizia às visitas que assim que se levantasse , sua vida tomaria um rumo diferente. Falava das viagens que faria. Falava dos trabalhos manuais que , finalmente, iria expor e vender. Todos a escutavam e tentavam incentivá-la, embora soubessem da gravidade de seu problema ( que o marido  proibiu-lhes de revelar-lhe) e estivessem cientes de que ela jamais sairia viva daquela cama.

Sozinho na casa, após um funeral simples e quase sem flores no qual ele não derramara nenhuma lágrima, recebendo as condolências com os lábios apertados e leves acenos de cabeça, ele finalmente sentiu a falta dela. Mais ainda quando, ao sentar-se na varanda, olhou para a mesinha de vidro e deparou com um de seus paninhos de croché sob um vaso de violetas secas. À noite, ele acordava de repente, sobressaltado, e olhava o lado vazio da cama; não conseguia mais dormir, e então perambulava pelos corredores vazios - os mesmos pelos quais ela perambulara tantos dias e tantas noites, sozinha  naquela casa, enquanto ele se divertia com outras mulheres em restaurantes e hotéis de luxo.

Tentou continuar levando a mesma vida de sempre - e , aparentemente, todos pensavam que ele realmente tinha superado a perda da esposa; mas quando retornava à casa, a solidão o acompanhava durante o jantar que consistia em comida pronta, que ele comprava no caminho, e que era comida em pratos de papel ou alumínio.

Um dia, ele chorou. As lágrimas desciam quentes sobre seu rosto, tão quentes, que queimavam-lhe a pele. naquele dia, alguma coisa parecida com arrependimento tomou conta do seu ser. Talvez nem fosse arrependimento por tudo de ruim que fizera a ela, mas por não ter se empenhado mais em salvá-la da doença, preservando a sua companhia silenciosa e seus serviços na casa; deveria ter aceito a sugestão de levá-la a um especialista em São Paulo, mas na época, achara caro demais.

Anos depois que ela se foi, ele a seguiu. Circunstâncias inesperadas fizeram com que fosse necessário que eu, uma de suas vizinhas, atravessasse a rua e aguardasse na casa a chegada de  uma tia distante, único parente ainda vivo, que viria tomar as providências para o funeral. Quando entrei naquela casa novamente, achei-a totalmente diferente: o belo jardim que havia quando ela estava viva, ele mandara destruir e cobrir de cimento. A casa tão bem-cuidada e limpa, reduzira-se a um lugar sujo, cheirando a mofo, cheio de vazamentos e coberto de poeira. Uma casa morta.

Mas alguém puxou de dentro de um armário, seus sacos de artesanato. Lindas colchas, capas de almofada, panôs bordados, cortinas, toalhas de mesa e rendas, derramaram-se uns sobre os outros, cheirando à naftalina. Alguém os lavou  e estendeu ao sol. Eram muitos! O que fazer com todos eles? A velha tia decidiu que ficaria com apenas alguns - os mais bonitos - e o restante, ela distribuiu entre nós, vizinhas e amigas. Hoje, aquelas belas rendas, bordados e crochés enfeitam salas e quartos de outras casas. As pessoas admiram-se ao vê-los, perguntando logo quem teria aquelas mãos de fadas.

Esse é o legado que ela deixou.
Ele não deixou nada.



sábado, 10 de maio de 2014

A Condutora



Seu destino era conduzir. Passava pelos caminhos onde agonizavam as almas em sua passagem, e ajudava-as a desprenderem-se da matéria densa que já não mais lhes cabia. Alguns a confundiam com alguma espécie de mensageira quando ela lhes aparecia; quem sabe, devido à sua diáfana aparência piedosa, que deslizava pelo chão sem fazer qualquer barulho.

Ela caminhava pelos corredores dos hospitais, procurando por aqueles que estavam prontos para ir. Quando eles a viam, estendiam-lhe os braços, e os parentes e acompanhantes que estavam com eles nos quartos sentiam um arrepio na nuca ao ver a cena, tendo a impressão de que seus entes queridos enxergavam alguém que só estava ao alcance de suas visões moribundas. Os mais céticos diziam ser efeito dos medicamentos.

Mas quando estas cenas começavam a acontecer, Marilda - uma das enfermeiras daquele grande hospital - sabia que aquele paciente em breve faleceria. Ela nunca tinha visto nada sobrenatural; apenas observava e sentia, após tantos anos assistindo pacientes terminais, que estes estavam indo embora; e não era nada relacionado ao seu estado, pois muitas vezes, alguns tinham melhoras súbitas, chegando a comer e caminhar pelos corredores; mas quando eles estendiam os braços para o nada, olhos perdidos em alguma figura que só eles enxergavam, não demorava muito e chagavam a óbito. 

Marilda ouvira relatos de alguns destes pacientes, que, de repente, enquanto ela cuidava deles, perguntavam: "Quem é esta senhora de branco?" Marilda , acostumada àquele tipo de pergunta, pedia a eles que a descrevessem, e onde ela estava, o que fazia, e os relatos eram quase sempre muito parecidos: "Ela está de pé junto à cama, perto de você. Não está vendo? Usa um véu e um vestido longo e branco, e carrega um buquê de lírios brancos. Oh, eu acho que é um sinal! Eu estou perto da cura!"

Marilda sorria para os pacientes, pois sabia que de alguma forma, eles estavam certos...


quinta-feira, 1 de maio de 2014

O Aniversário



Sentou-se na varanda de manhã bem cedo - nem bem raiara o dia. Aspirou os doces perfumes do ar gelado, aconchegando-se à manta que a envolvia. Aquele seria mais um aniversário - o segundo - no qual a aniversariante não estaria presente.

Ela pensou em outros aniversários, nos quais a família reunida e alguns amigos mais próximos cantaram o bom e velho "Parabéns a você", esquecendo-se de que o tempo não perdoa a efemeridade dos momentos. A vida é tão frágil quanto a chama das velas que são sopradas a cada ano, e quanto mais velas há sobre o bolo, menos anos de vida nos aguardam.

Lembrou-se das caixas de presentes coloridas sobre a cama, e o quanto a aniversariante gostava de experimentar tudo o que ganhava de presente: roupas, sapatos, cachecóis, bolsas. Ela vestia tudo, tentando fazer combinações com as peças antigas que já estavam no armário, combinando cores e padrões e tecendo comentários sobre onde e quando poderia usar cada traje. As filhas ficavam em volta, dando opiniões.

Mas não naquele Primeiro de Maio; não haveria reunião. Não haveria bolo, nem festa. Por que as pessoas tem sempre a mania de não mais festejar os aniversários de quem já morreu? Se acreditamos na vida que continua, e se há tantas lembranças boas, não seria esta uma maneira de manter acesa a lembrança dos que se foram? Sem contar que também poderia ser um pretexto para reunir a família! Imaginem: toda a família reunida na sala, comemorando, olhando fotos antigas, recordando velhas histórias... seria como se a pessoa que se foi estivesse novamente ali. Poderia ser um momento alegre.

Mas não; as pessoas gostam de colocar um diadema negro sobre todas as ausências. A morte é o maior tabu, O Intocado, o evento que todos fazem questão de cobrir com uma densa camada de silêncio. Precisamos, desesperadamente, esquecermos das velinhas que todo ano colocamos sobre os nossos bolos.

Ela suspirou fundo; olhou para cima, e viu que um pássaro havia pousado na ponta mais alta do pinheiro, balançando-se no ar, agitando as asas sobre a fragilidade das coisas. Tudo é como sempre foi, e sempre será. Mesmo assim, tudo muda.


A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...