segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O NATAL DE RAIANNY






Este conto inaugura uma série de contos de Natal que pretendo escrever até o dia 25 de dezembro. Não sei quantos serão, ou quando irei escrevê-los, mas serão todos inéditos e de minha autoria. Tentarei fazê-los bem reais, mas sem perder a magia desta época tão bonita.



O Natal de Raianny


Raianny tinha dez anos de idade, e morava em um orfanato desde os três. Cleyson, seu irmão mais novo, fora adotado um ano depois  que chegaram, mas a família que o adotara não queria um casal: apenas um menino. Sendo assim, ela ficou sozinha no orfanato aos seis anos, e nunca mais soube do irmão. Quando perguntava por ele, as freiras apenas diziam que ele estava muito bem e muito feliz, e que morava em um país bem longe dali. Ela não sabia muito bem o que era um outro país. Quando ouvia aquela palavra, lembrava-se apenas das linhas coloridas traçadas nos mapas das aulas de geografia. Imaginava que seu irmãozinho caminhava por elas, brincando de pular de uma para outra. Ainda tinha uma fotografia dele, e lembrava-se de como ele era bonito...
Raianny sempre passara o natal no orfanato com as outras crianças. Todo ano, algumas delas eram escolhidas por algumas famílias para passarem o natal com elas em seus lares. Mas Raianny jamais fora escolhida. Quando olhava-se no espelho, ficava triste, de olhar perdido no cabelo emaranhado e sem cor, no nariz redondo de batata, nos membros extremamente compridos e muito magros, nos dentes salientes e na pele mulata. Ao contrário do seu irmão, ela era uma criança feia, e sabia disso. E achava que talvez fosse aquele o motivo de jamais ter sido escolhida.

Gostava de imaginar que estava ali só de passagem, e que logo sua mãe viria buscá-la. Ela ainda conseguia lembrar-se dela, e do dia em que ela estava muito esquisita e fora levada nos braços de uns homens de uniforme. Uma das vizinhas gritava que ela não estava respirando. Colocaram-na em um grande carro branco que foi embora soltando muita fumaça pelo cano de descarga e apitando uma sirene enjoativa. Toda vez que ela ouvia uma sirene como aquela passando na rua, corria para a janela achando que fosse a mãe, voltando para buscá-la. E por mais que as freiras tentassem convencê-la de que  mãe não voltaria mais (tinha partido em uma grande viagem sem volta), ela recusava-se a separar-se de sua única esperança de ser feliz.

Um dia, Raianny estava brincando de amarelinha com as outras crianças no pátio da escola quando viu um casal muito arrumado aproximar-se delas. Todas as meninas e meninos pararam de brincar e correram na direção do casal, pois sabiam que o natal se aproximava e que as crianças seriam escolhidas para passá-lo nas casas de família. Algumas não voltavam nunca mais. As freiras comentavam sobre a sorte delas, pois tinham sido adotadas e passaram a fazer parte da família.

Bem, havia um alvoroço e uma gritaria à qual Raianny já estava acostumada, e da qual não mais participava, pois sabia muito bem que ninguém a escolheria. Ficou de longe observando, sentada em um canto, as mãos sobre os joelhos e o olhar muito triste que ela nem percebia que tinha. As crianças cercaram o casal, e algumas delas gritavam tão alto que era impossível ouvir o que qualquer uma delas dizia! a mulher tinha o olhar assutado, e o marido parecia bastante aborrecido. Uma das freiras precisou interferir, afastando as crianças com ameaças de castigos. Só assim elas se acalmaram, os olhares ansiosos presos no casal, as mãos erguidas, pedindo para que o casal as escolhessem.

De repente, a mulher levantou os olhos e olhou na direção dela. Seguida pelo marido, que caminhava com as mãos no bolso e olhar contrariado, a mulher caminhou para ela, dizendo à freira: "É esta menina que eu quero! Parece muito educada." A mulher tocou-lhe o queixo, erguendo-lhe o rosto.

Raianny mal pode acreditar no que ouvia! Tinha sido escolhida! Nem sabia o que dizer. Já ia agradecer quando a mulher virou as costas e foi embora, conversando com a freira e seguida pelo marido que nunca se manifestara. Minutos depois, as freiras vieram buscá-la. Disseram-lhe que fosse boazinha e obedecesse. banharam-na, pentearam-lhe os cabelos lavados com muito creme de enxaguar, vestiram-lhe uma roupinha nova, muito cheia de babados e fitinhas e bordadinhos. Calçaram-lhe  um par de vistosos sapatos de verniz branco, e meias três-quartos. Raianny olhou-se no espelho e viu que estava quase bonita. As freiras levaram-na para a recepção, onde o casal a esperava.

O motorista, um senhor negro e muito simpático,  tomou-a pela mãozinha magra, conduzindo-a ao carro da família, enquanto o casal permaneceu conversando com as freiras por mais algum tempo. Depois, eles entraram no carro - o pai sentado no banco da frente, e a mãe sentada atrás, com ela. mas bem afastada. Raianny queria falar, dizer alguma coisa que mostrasse seu agradecimento por ter sido escolhida, mas o ar sisudo dos seus pais adotivos mantinha-na calada. Benedito - este era o nome do motorista - olhou-a pelo espelho retrovisor e piscou para ela, o que fez com que ela sorrisse. 

Chegaram a uma linda casa, pintada de azul clarinho, enorme, cercada por um jardim maravilhoso como Raianny nunca tinha visto ou imaginara existir. À porta da mansão, um fotógrafo os aguardava, e então os pais tomaram-na pela mão, sorrindo pela primeira vez, e eles tiraram muitas fotos juntos. O pai falava a uma moça com um caderninho onde anotava tudo; dizia que todas as famílias abastadas deveriam dar um lar a alguma criança que necessitasse naquela época. Também falava da contribuição que sua empresa dava às casas de caridade. Enquanto isso, a esposa abraçava Raianny, sorrindo para as fotografias. Raianny sorria também, segurando as pontinhas rendadas das saias do seu vestido novo.

Depois que o fotógrafo e a moça do caderninho foram embora, o casal ordenou ao motorista que levasse Raianny ao seu quarto, pois precisavam voltar para a empresa. Benedito pegou  a menina pela mão mais uma vez, levando-a antes até a cozinha da casa, onde uma mulher gorda e gentil chamada Rose preparou-lhe um lanche delicioso. Ela comeu tudo, e depois de tomar uma grande taça de sorvete, com muito cuidado para não sujar o vestido, Benedito levou-a ao seu quarto. Chegando lá, Raianny mal pode acreditar na quantidade de brinquedos disponíveis! Benedito deixou-a a inda mais feliz ao dizer que ela podia brincar com o que quisesse, mas que tomasse muito cuidado para não quebrar nada. E ela brincou, feliz da vida, com as bonecas com rostos de princesa, sonhando em ser tão bonita quanto elas um dia. Ela empurrou carrinhos que jamais dirigiria, criou mundos encantados onde os animais de pelúcia falavam, e fez muitas comidinhas para suas novas amigas, as bonecas. Mais tarde, muito cansada, deitou-se na caminha coberta com colcha cor-de-rosa e dormiu.

Acordou horas depois, e uma menina loirinha olhava para ela. Raianny sentou-se na cama, e a menina apresentou-se:

-Olá. Eu sou a Bia. Quem é você?

-Eu sou Raianny. Acho que vamos ser irmãs... eu vim para...

Bia ergueu a cabeça, e cortou sua fala:

-Jamais seremos irmãs. Olhe só, você é negra! Eu sou loira e tenho olhos azuis. Além disso, você é muito feia! Espero que não tenha quebrado nada. Tudo isso aqui é meu.

Dizendo aquilo, Bia tomou-lhe a boneca que Raianny segurava. A menina ia protestar, quando Rose entrou no quarto:

-Bia, você não está sendo educada com a convidada de sua mãe. Peça desculpas!

A menina mimada grunhiu um pedido de desculpas, e saiu correndo do quarto. 
Rose entrou e sentou-se na cama ao lado de Raianny, enxugando-lhe algumas lágrimas com a ponta do avental:

-Não chore, querida. Olhe, ela não passa de uma menina mimada e boba. E eu tenho ordens de tomar conta de você e der tudo o que você quiser! O que gostaria? Talvez mais um pouco de sorvete depois do jantar, hum? Que tal?

Raianny sorriu, concordando com a cabeça. Logo estava sentada à mesa da cozinha, comendo com Rose e os outros empregados da casa. Uma moça negra chamada Luiza comentou:

-Eles nem vão deixá-la comer no salão de jantar?  Mas que gente!... todo ano é a mesma coisa.
-Cale-se, Luiza, ou vai deixar a menina triste - Benedito ralhou.

Raianny percebeu que falavam dela, mas continuou comendo aquela comida deliciosa, que jamais comera no orfanato, onde nada tinha muito gosto.

Rose disse:

-Só faltam três dias para o Natal. Isso pra gente só significa que teremos trabalho triplicado.

Os três suspiraram. Luiza falou:

-Pelo menos, temos o décimo terceiro salário. 
-E mesmo - respondeu Rose.

Benedito sorriu para Raianny, e ela sempre sentia-se segura quando ele fazia aquilo. Ficou mais leve.  Começou a responder as perguntas sobre como era a vida no orfanato, e percebeu que era bem mais divertida do que naquela casa onde estava. As freiras conversavam com ela. Tratavam-na bem. Seus pais adotivos a ignoravam. 

Na manhã seguinte, Raianny acordou em seu quarto de princesa, cercada pelos brinquedos maravilhosos, e viu que não tinha sido apenas um sonho. Foi ao banheiro, e quando saiu, Rose a esperava com uma muda de roupa - outro vestido, desta vez, branco com fitas amarelas brilhantes. Novinho em folha! Rose ajudou-a a tomar banho e pentear o cabelo - que prendeu em uma caprichada trança - e vestiu-lhe o vestido, que chegava até os pés. Calçou-lhe um par de sandálias brancas, que apesar de usadas, estavam novinhas. As duas começaram a descer as escadas até a sala, e Raianny viu que havia uma porção de gente que começou a tirar fotografias assim que a viram. "A casa parece um estúdio de cinema", pensou Rose. 

Seus pais adotivos estavam lá, e muito amáveis e sorridentes, vieram recebê-la, com um beijo no rosto e muitos afagos. Mais uma vez, falavam sobre a importância do Natal, da caridade e do amor. Sua mãe adotiva até chorou, o que fez com que Raianny chorasse também, e ela a acariciou o rosto, comovida. Com a voz embargada, discursou:

-Só Deus sabe o que esta pequena já passou na vida... é com muita alegria que proporciono-lhe os melhores dias de sua vida, dos quais ela há de lembrar-se para sempre. E é claro, a nossa empresa está providenciando para que o Natal de muitas crianças como a nossa Raianny seja muito feliz...

Mais fotos. Mais lágrimas. E quando todos se foram, a mãe chamou Rose, entregando a menina: 

-Dê-lhe alguma coisa para comer. 

Depois, Raianny não viu mais seus pais adotivos. Viu quando sua irmã adotiva passou por eles, carregando uma pequena mochila. Ela também passou o dia fora. 

Raianny ficou brincando no jardim. Queria usar a piscina, mas Rose disse que infelizmente, os patrões tinham dado ordens expressas para que ela ficasse longe da piscina. Com um sorriso amarelo, Rose disse que era porque eles ficavam muito preocupados que algo ruim acontecesse a ela... mas ela podia brincar no parquinho. Havia um escorrega, balanço e gangorra.

-Mas... com quem eu vou brincar? 

Naquele momento, Benedito chegou em casa, pois tinha ido levar seus patrões ao trabalho. Ele disse:

-Não se preocupe, Rose, eu brinco com ela.

E ele a empurrou no balanço, e ajudou-a na gangorra. Contou-lhe histórias e ensinou-lhe algumas canções de natal. Os dois tomaram mais sorvete na cozinha. Quando viram, já estava anoitecendo. Cansada, Raianny dormiu, e Benedito a colocou na cama.

Na manhã do terceiro dia, Raianny acordou e desceu de camisola para a sala de estar. Quando Rose a viu, exclamou:

-Graças a Deus os patrões já saíram! Eles me matariam se vissem você circulando de camisola por aí, Raianny.

Mas Raianny nem escutou: Rose, Benedito e Luiza arrumavam uma enorme e linda árvore de natal! Ela foi convidada a ajudar a pendurar os enfeites, o que a deixou muito feliz. Foi informada de que haveria uma grande festa de natal naquela noite. Quando terminaram de montar tudo, já era quase hora do almoço. A campainha tocou, e Quando Rose abriu a porta, uma porção de gente esquisita começou a andar de uma lado para o outro, alguns dando ordens e outros obedecendo. A sala foi começando a ficar diferente, cheia de luzes e até uma fonte d'água bem no meio. Raianny observava  tudo do alto da escada. Ficou um pouco triste quando viu que a árvore que havia ajudado a montar foi levada para um canto escuro do corredor, e uma outra, bem maior e imponente, a substituiu. Era toda dourada, com bolas de cristal iluminadas e uma grande estrela prateada que soltava faíscas na ponta.

Rose veio buscá-la para almoçar, passando com ela por toda aquela multidão. De repente, uma mão macia a segurou:

-É esta a menina da campanha deste ano?

-E sim, Rose respondeu.

Ele soltou uma exclamação de espanto:

-Noossa!!! A do ano passado era bem mais... mais...

 Raianny olhou para cima e viu um homem estranho, com lenço rosa no pescoço e blusas de babados nas mangas. Ele deu um sorriso forçado para ela, e acenou-lhe um adeusinho enquanto se afastava. 

A noite chegou, e Rose foi arrumá-la para a festa. Vestiu-a com o mais lindo dos vestidos: branco com botões dourados, sapatos de veludo vermelho, e um laço vermelho na cintura. Uma moça veio arrumar seus cabelos, que ficaram lisinhos, lisinhos, e ela os prendeu com uma fivela dourada. Ela foi até maquiada! Pintaram-lhe as unhas de rosa, e quando Raianny se olhou no espelho, viu que tinha ficado... bonita!!!

Daquela vez, sua mãe adotiva foi buscá-la para descer as escadas até o salão, e Bia, sua irmã adotiva, estava com ela. A mãe avisou à Bia:

-Lembre-se: seja gentil, principalmente com Raianny, e sorria sempre! Trate-a bem na frente de todos. Haja como se ela fosse muito querida e bem vinda nesta casa. Esta bem?

Bia balançou a cabeça, concordando, enquanto olhava para Raianny com desprezo. Mas quando elas começaram a descer as escadas e os flashes espocaram, Bia tornou-se para ela a criatura mais gentil e meiga do mundo! Apresentou-a às suas amiguinhas, sempre segurando-a pela mão e fazendo muitas poses para fotos. 

Pela primeira vez desde que chegara, Raianny foi convidada a tomar um lugar à mesa, na sala de jantar. Inocentemente, ela soltou:

-Mas... eu preferia comer na cozinha, com os empregados, como nos outros dias...

Um silêncio mortal abateu-se sobre todos.

De repente, A mãe começou a rir histericamente:

-Hahaha! Ela é muito brincalhona... você é nossa convidada de honra, Raianny querida!

E todos riram, e o incidente foi esquecido. Trataram-na tão bem, que a menina achava que poderia ser realmente adotada! Foi uma noite inesquecível. Ela era o centro das atenções, paparicada por todos, principalmente pela sua família adotiva. À meia-noite, muito cansada, ainda a puseram sob a árvore para abrir os muitos presentes que ganhara. Ela reparou que eram iguais aos que ela brincara no quarto, mas achou melhor não dizer nada e fingir surpresa. 

Nem percebeu quando adormeceu.

Acordou na manhã de natal de volta ao orfanato, cercada pelas tristes paredes cinzentas do dormitório das meninas. Em um canto, algumas caixas que abrira na noite anterior, mas não eram nem a metade dos presentes que ganhara!

Passou o dia de natal no orfanato, como sempre... a noite de magia terminara. Usava seu vestidinho de malha de sempre: A Cinderela estava de volta aos seus trajes de aia. 

Durante o dia, um homem vestido de papai-noel esteve no orfanato, acompanhado de uma porção de gente que distribuiu brinquedos que não chegavam aos pés dos que ela vira na mansão. Eles contaram histórias bobas que não eram engraçadas e interessantes, nem mágicas como as que Benedito contara a ela. Encenaram uma peça pobre e feia, nem um pouco parecida com a que ela vivera... e então ela se deu conta: tudo tinha sido apenas como num teatrinho, e ela nada mais fora que uma personagem... tinha sido usada por aquelas pessoas.

Perceber aquilo deixou-a com uma tristeza amarga, mas ao conversar com a freira, esta disse-lhe que fosse grata pelo que tivera naqueles poucos dias. E Raianny realmente tentou, mas sua tristeza não ficava curada. Sentia saudades de Rose e Luíza, mas acima de tudo, sentia muita falta de Benedito. 

Uma semana depois do natal, uma das freiras aproximou-se:

-Raianny, você vai ser adotada.

Ela apenas chorou. Mais uma vez? Não... ela não queria sair dali nunca mais! E disse aquilo à freira, que ficou muito surpresa.

-Mas... você sempre quis ser adotada! 

-Mas não quero mais. As pessoas lá fora são ruins, irmã. Prefiro ficar aqui.

-Mas... você nem quer saber quem vai adotá-la?

Naquele momento, Raianny viu Benedito e uma senhora, e eles estavam de mãos dadas, sorrindo e caminhando na direção dela. Quando ele se ajoelhou e estendeu os braços para ela, abrindo-os para recebê-la, ela compreendeu que seria feliz.










segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A Casa do Caminho de Pedra - FINAL




Aurora levantou-se para fechar as janelas antes que a tempestade começasse. Havia uma atmosfera pesada no ar, e ela podia sentir que não era apenas devido à tempestade. Parecia que alguma coisa estava sendo purgada de sua vida, e que após aquela tempestade, tudo ficaria bem. Ela poderia parar de se esconder. Eram apenas pressentimentos, mas Aurora aprendera que seus pressentimentos muitas vezes eram bem concretos.

Estava parada à janela vendo a chuva que começara a cair de leve. 
Na pequena cidadezinha, um estranho acabara de chegar. Pedia informações sobre uma casa cujo caminho era de pedras.

O senhor que deu-lhe a informação, indicando-lhe o caminho, disse:

-Leve algumas pedras para colocar no caminho e ajudar a moça a terminar a estradinha que leva até a casa! Dizem que só faltam mais algumas. 

E contou-lhe a história do caminho de pedras. Assim, o forasteiro parou no caminho e colocou alguma pedras lisas na mala do carro. O céu estava escuro, e prometia uma tempestade para dali a pouco. Ele agiu rapidamente, e escolheu algumas pedras mais lisas e chatas que ele achou que poderiam ficar bem em uma trilha. 

A tempestade caiu, e Aurora fechou as janelas. Parecia que o mundo estava desabando lá fora! Mas após meia hora, ela percebeu que os pássaros recomeçaram a cantar, e uma nesga de sol convidou-a a abrir novamente as janelas. Ela foi lá para fora, sentir o cheiro maravilhoso de jasmins e terra molhada. O céu estava novamente azul. Havia borboletas imensas, multicoloridas, e muitos passarinhos. 

Quando Aurora olhou para o chão, viu que alguém tinha terminado a estrada de pedras. Finalmente, o caminho estava pronto! Ela teve mais um daqueles seus bons pressentimentos, e seguiu pelo caminho até a beira da estrada. Quando deparou com um carro vermelho, estacionado junto à estrada, ela logo soube de quem era. Caminhou até ele, e ao olhar para dentro, viu um rosto conhecido e amado que dormia. 

Mal pode conter sua alegria, e as lágrimas desceram, uma a uma, mas lágrimas de felicidade. Ele abriu os olhos, e finalmente, seus olhares se encontraram após tanto tempo separados!

João saiu do carro, e abraçou-a com força, dizendo seu nome várias vezes: “Rúbia, minha querida Rúbia...” mas ela calou-o com um beijo, e depois corrigiu-o:

-Não sou Rúbia. Aqui, eu sou Aurora. 

E o sorriso dela pareceu-lhe como a aurora em manhã de primavera.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte X




Aurora levou um grande susto, pois nunca tinha visto alguém que já morrera. Tinha sonhos e ouvia vozes, mas nunca tivera assim uma visão tão clara, como se Marta estivesse viva, diante dela!

Levantou-se da cadeira, derrubando um vidro de tinta vermelha, e achou que era um mau presságio... ao erguer os olhos, a imagem da mãe tinha desaparecido. 

Lá na cidade grande, Jorge e Helena conversavam. Ele acabara de contar a ela que a liberdade de seu filho tinha sido negada, e que não poderiam apelar mais. Helena chorava. Sentia ainda uma enorme vontade de “por as mãos naquela filha de uma prostituta” e vingar-se de uma vez pelo que acontecera à sua filha Jane e ao seu filho Eduardo! Mas Jorge pediu-lhe que se acalmasse e ouvisse o resto da história que tinha para contar. Ela respirou fundo, e tomando um bom gole de bebida alcoólica, procurou prestar atenção ao marido:

-Helena, eu sei que passamos mais que dois anos de nossas vidas odiando Marta e sua filha pelo que aconteceu à nossa menina. Desejamos nos vingar, e achamos que Eduardo estava tentando apenas vingar a morte da irmã ao assassinar Marta. Mas eu preciso que você me escute com muita atenção... pare de beber, por favor, e me ouça (ele tirou o copo da mãe da esposa):

-Hoje recebi um telefonema. Uma das amigas de Jane. Lembra-se de Gilda? Ela pediu-me se podia conversar comigo, e disse que me procurasse no escritório. 
-E ela esteve lá? O que ela sabe? O que queria dizer?
-Ela estava com Jane no dia em que ela morreu, e contou-me tudo. Só não se manifestou antes porque não queria complicar ainda mais as coisas. Mas ao saber que eu estava tentando libertar Eduardo mais uma vez, ela decidiu que era hora de dizer o que sabia.

Helena ficou lívida, e concentrou-se nas palavras do marido:

- Ela me disse que ambas tinham ido à casa de Marta algumas semanas antes da morte de Jane, onde ela pedira uma poção para conseguir emagrecer. Você se lembra, ela sempre foi um pouco gordinha... Gilda falou-me que ela começou a tomar o remédio, e que realmente estava conseguindo emagrecer e controlar o apetite.

-E por causa daquela megera que exercia medicina ilegalmente, nossa filha morreu envenenada!
-Não! Espere, deixe-me terminar! Dias depois, Jane pegou o irmão roubando dinheiro do cofre da casa.  Ela brigou com ele, e o fez devolver tudo. Gilda também estava presente naquele dia, e testemunhou tudo.
-Meu filho, roubando dos próprios pais? Não acredito!
-Mas é verdade, Helena...

Jorge parecia triste, cansado e envelhecido.

-Eduardo estava viciado em cocaína. Roubava para pagar a um traficante que o estava ameaçando. Já tinha, inclusive, participado de um roubo a uma casa de veraneio, e Jane sabia de tudo. Ameaçou contar-nos tudo se ele não parasse.
Helena lembrou-se das muitas vezes em que vira o filho agir de forma estranha ou tornar-se subitamente agressivo, mas ela decidira ignorar e por panos quentes, protegendo-o e fingindo que estava tudo bem. Lembrou-se das reclamações da escola, e de quantas vezes ela fora chamada para conversar com a diretora devido às atitudes de bullying do filho em relação a alguns colegas. E também da forma como o defendeu ao saber que ele tinha cometido um assassinato!

Jorge continuou sua história:

- Bem, ele não parou... naquela noite em que Jane morreu envenenada, Gilda havia estado com ela, e viu quando ela tomou o remédio preparado por Marta, como fazia todos os dias. Era ainda dia claro, logo antes do almoço, e ela tomou o remédio como sempre fazia. Não se sentiu mal. Continuou agindo normalmente. Gilda disse que estava entusiasmada, pois via que Jane estava realmente perdendo bastante peso, e decidiu provar o remédio. Se estivesse envenenado, ela teria morrido também. 

As duas marcaram de sair juntas à noite. Quando Gilda chegou aqui em casa – estávamos viajando, lembra-se? – e subiu até o quarto para encontrar nossa filha, viu quando Eduardo entrou no quarto. Como chovesse muito, e houvesse  muitos trovões ele não ouviu quando ela se aproximava. Ela achou a atitude dele estranha e ficou escondida, observando-o através da porta entreaberta. Viu que Jane estava deitada na cama, inerte, e viu quando João, usando luvas, colocou o remédio que ela estava tomando, dado por Marta em um copo com água. Ela achou aquilo estranho, e ficou escondida. Quando ele saiu, Jane entrou. Chamou por Jane, mas ela não respondeu: nossa filha estava morta! 

Helena tampou a boca com as mãos, horrorizada:

-Você está dizendo que foi Eduardo que matou a irmã?!

Tristemente, Jorge respondeu que sim, acenando com a cabeça.

-Eu não acredito nessa história! Meu filho não faria uma coisa dessas! E por que ele mataria Marta?
-Porque Marta era médium, e sabia do que ele tinha feito, e tentara incriminá-la. Gilda disse que o telefone de Jane tocou enquanto ela estava no quarto, e ela atendeu. Era Marta, desesperada. Queria saber se Jane estava bem. Elas conversaram por alguns minutos, e Gilda decidiu mentir, dizendo que a amiga estava dormindo. Mas Marta disse que sabia que ela estava mentindo, e que ela deveria chamar a polícia. Então ela confessou tudo à Marta.
Mas ficou com medo. Assustada, Gilda desligou, e usando uma toalha, apagou suas digitais do telefone de Jane. Enquanto saía correndo da casa, apavorada, esbarrou em Eduardo. Ele percebeu que ela tinha visto tudo. Ameaçou-a de morte, se ela contasse alguma coisa, e apavorada como estava, Gilda acabou revelando a ele que Marta sabia de tudo. Logo depois, ele a matou com um tiro, naquela mesma noite, enquanto sua filha Rúbia dormia no quarto ao lado. E Gilda saiu em viagem, com medo de Eduardo. Só voltou meses depois. E há testemunhas que o viram próximo à casa de Marta na noite do crime, como você sabe. Nosso filho matou Jane, Helena... sua própria irmã!

-Mas toda essa história pode ser mentira! Eu não posso crer, não posso! Gilda mente! E se marta era médium e sabia de tudo, como não adivinhou que Eduardo ia matá-la? 

-Minha querida, nem sempre os médiuns sabem de tudo... eles não sabem de todas as coisas que estão para a acontecer. Ninguém sabe. E eu conversei hoje com Eduardo. Contei-lhe a história antes de vir para casa. Ele confessou tudo. Nosso filho matou duas pessoas. E cometeu vários assaltos.

Dentro daquela casa, as trevas da tristeza invadiram todos os espaços. Mais tarde, Helena seria encaminhada para tratamento psicológico em uma clínica. Ao sair da clínica, faria uma visita ao filho. Ambos se abraçariam, chorariam e perdoariam os pecados um do outro.

Ao mesmo tempo, Helena perceberia que passara todo aquele tempo tentando culpar uma pessoa inocente pela morte da filha, e que aquilo não fazia mais sentido. Deixaria Aurora em paz.

(continua...)


terça-feira, 4 de novembro de 2014

A CASA DO CAMINHO DE PEDRAS - PARTE IX





A casa do Caminho de Pedras – parte IX

O telefone tocou, e ele atendeu. Tinha um dia ocupado pela frente, principalmente após ter dado férias à sua secretária. Ninguém respondeu quando ele disse “Alô.” Do outro lado da linha, apenas o silêncio. Ele repetiu: “Pois não, quem fala?” E uma voz respondeu:

-É sobre a mulher no cartaz...

Ele endireitou-se na cadeira, ouvindo com atenção, todo o seu corpo rígido de ansiedade:

-Eu a vi. Sei onde ela está. 

Do outro lado daquela grande cidade, Jorge chegou em casa de repente. Quando Helena deparou com ele àquela hora, surpreendeu-se, pois o marido jamais almoçava em casa. Ela olhou para ele, como a indagar sobre sua presença inusitada. 

-Precisamos conversar, Helena, e você terá que me ouvir com atenção e acreditar no que eu tenho para lhe dizer.

Há milhares de quilômetros dali,  Maria, em seu apartamento, olha a fotografia de Aurora no cartaz. Deixa rolar uma última lágrima, que enxuga com as costas da mão. Respirando fundo e pensando se tomara a decisão certa, ela guarda o cartaz na gaveta enquanto arruma suas malas. Estava indo embora daquela cidade que tanto amava, pois precisava recomeçar. Precisava deixar para trás os acontecimentos tristes de sua vida, nos quais ela tanto se demorava. Naquele apartamento onde vivera com os pais, ela sabia que não conseguiria esquecer-se da tristeza que sentia pela falta que eles lhe faziam, e também não poderia esquecer-se de sua grande paixão por Aurora se continuasse a vê-la todos os dias como vinham fazendo – afinal, a amizade não terminara. Iria embora sem despedir-se, pois sabia que se tentasse despedir-se dos bons amigos que tinha feito ali, eles tentariam fazê-la ficar. Também não conseguiria despedir-se de Aurora. Já tinha tocado no assunto com ela, sugerindo que estava pensando em ir embora. A amiga levantou-se da cadeira e foi até o quarto, voltando com um baralho de tarô. Enquanto embaralhava as cartas, foi dizendo:

-Vamos ver o que o futuro lhe traria, se fosse embora daqui...

Aurora começou a deitar as cartas sobre a mesa, após pedir-lhe que fizesse o corte do baralho. Ela respirou fundo, fechando os olhos, antes de virar a primeira carta, que mostrava uma figura que ela explicou-lhe ser “O Louco”, onde um andarilho com uma trouxa às costas caminhava sem direção, despreocupadamente, enquanto era seguido por um cão. Virou uma outra carta, que mostrava O Diabo – que ela explicou ser a carta das paixões e dos bons negócios. Finalmente, uma outra carta mostrava uma figura de um sol brilhante, que coroava todos os sucessos. Aurora explicou o significado da leitura:
-O andarilho, ou o Louco, representa você mesma e sua viagem; se decidir ir, mesmo sem saber muito bem para onde... (ela colocou ao lado da primeira carta a figura do Diabo), encontrará uma grande paixão e fará um bom negócio. Mas cuidado ao misturar paixão e negócios, pois pode ser uma mistura explosiva. Mas pelo jeito, esta mistura será coroada de êxito, no seu caso (ela colocou sobre as outras cartas, a figura do sol). Querida, se quiser ir, sentirei muito a sua falta, mas compreenderei e ficarei torcendo por você. Mas já sei que tudo dará certo, sua vida dará uma guinada de cento e oitenta graus. Se decidir ficar, levará a vida que tem levado – que não é triste, é boa e tranquila, e continuará assim: boa e tranquila, sem grandes acontecimentos.

Maria fora para casa pensando muito nas palavras de Aurora, e tomou sua decisão: iria embora. Um tanto  decepcionada, pois guardava a esperança de que ela lhe pediria que não fosse. Tinha um gosto amargo na boca porque a amiga aceitara sua partida com tanta resignação...
Mas antes de ir embora, ela tomara a decisão que mudaria para sempre a vida de Aurora.

Em sua casa, Aurora cuidava de sua pequena horta. O calor do dia fazia com que pequenas gotículas de suor brotassem em sua testa, mas ela trabalhava alegremente. Cavava a terra, plantava as mudas. O dia prometia ser bastante quente, e quem sabe, haveria uma tempestade de verão no final da tarde? 
Ao terminar seu trabalho, cansada e satisfeita, Aurora recolheu as roupas do varal. Depois, alimentou seus animais e foi verificar o andamento da fabricação de seus deliciosos queijos; estava tudo indo muito bem, como sempre! Verificou se havia bastante combustível para o gerador, e ficou contente ao ver que aquele ainda duraria alguns dias. Faltava colocar os laços e pintar mais alguns vidros para suas compotas, e ela colocou seu material de pintura sobre a mesa, começando seu trabalho. Trabalhava com gosto e precisão. Logo, tinha mais uma meia-dúzia de  potes de vidro lindamente decorados, que após secos e higienizados, dariam maravilhosas embalagens para suas compotas de amoras silvestres. Assim, antes de guardar seu material, ela ainda terminou a pintura de um quadro de flores, encomenda de uma de suas clientes da feira. 

A vida era boa por ali, ela pensou. Não queria ir embora nunca mais. Apenas uma tristeza não a deixava naquela tarde quente e perfumada: é que em seu coração, despedira-se da amiga (que, ela sabia, estava entrando no ônibus naquele momento). Aurora estava sentindo-se um pouco melancólica, mas feliz porque sabia que Maria seria muito feliz no lugar para onde estava indo. Lá, ela encontraria o amor verdadeiro, e ainda começaria um bom negócio, que era seu sonho: uma fábrica de objetos de madeira para pintura, e uma escolinha de artesanato. Sua sócia e ela teriam um excelente relacionamento... e ambas seriam muito felizes juntas.

De repente, uma rajada de vento trouxe para dentro de casa algumas folhas secas, e derrubou uma pequena cesta de palha que Aurora mantinha sobre o balcão da cozinha. “Mudanças,” Ela pensou. 

Voltou a trabalhar, mas quando ergueu os olhos, Aurora deparou com a imagem de sua mãe parada diante dela. 

(continua...)





quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A CASA DO CAMINHO DE PEDRAS - PARTE VIII






Maria não bateu; encontrou a porta entreaberta, e entrou. Deparou com Aurora parada no meio da sala, e as amigas (ainda eram amigas?) se olharam. Havia lágrimas nos olhos de ambas. Aurora não sabia o que dizer. Qualquer coisa, seria a coisa errada. Lembrou-se da maneira como Maria tinha sido sua amiga e companheira, ajudando-a sempre com tudo, ouvindo-a e respeitando seus silêncios e segredos. Chorou, ao lembrar-se da maneira como confiou nela mesmo sem nada saber a seu respeito. 

Maria pensou na primeira vez em que pusera os olhos sobre Aurora, há dois anos; achou-a fascinante! Desde aquele dia, sentiu-se tão atraída por ela (embora não admitisse) que fez de tudo para que se tornassem amigas. Quando Aurora recusava, gentilmente, sua intimidade, ela ressentia-se, mas sempre tentava de novo mais tarde. Finalmente, ficou exultante ao sentir que quebrara o gelo entre as duas. Achou que nada jamais as separaria, desde o dia em que fora convidada a entrar naquela casa. 

Aurora adivinhava a onda de pensamentos que emanava de Maria, e sentia muito por não poder corresponder aos seu sentimentos, pois sabia que Maria sairia daquela casa muito magoada naquele mesmo dia... quando Maria caminhou em sua direção, pegando-lhe a mão, ela não quis ouvir o que sabia que ela diria:

-Aurora... 

Sua voz estava embargada, e ela ainda lutava contra seus sentimentos, que eram-lhe estranhos. Mas naquele momento, eles pareciam-lhe, apesar de tudo, bem claros. Ela disse seu nome novamente, a voz entrecortada pela dor:

-Aurora... 

Mas ao olhar para os olhos da amiga, compreendeu que ela não partilhava, e nem partilharia, jamais, dos mesmos sentimentos. Sentiu seu coração partir-se ao meio, e uma enorme dor tomar conta de si. Achou melhor evitar uma situação ainda mais embaraçosa, e assim, não disse as palavras que gritavam dentro de seu coração. Olhou-a ainda mais uma vez, apertando-lhe a mão com carinho. Não conseguia ter raiva dela. Não guardaria qualquer tipo de rancor ou mágoa. Sentia apenas ciúmes por saber que há apenas alguns minutos, Pedro tivera nos braços o grande amor de sua vida, ali mesmo, naquela casa, naquela cama que ela conseguia ver de onde estava. Ainda poderiam voltar a ser amigas? Achava difícil, mas ela ia tentar, e tentaria também livrar-se daqueles sentimentos e desejos que, para ela, tinham sido considerados ‘anormais’ até conhecer Aurora. 
Aurora pediu a ela que se sentasse, enquanto ia até a cozinha buscar-lhe um copo de água com açúcar para que ela se acalmasse. 

Fraca e imersa em tristeza, Maria obedeceu sua amiga (ou ex-amiga?), sentando-se na poltrona junto à mesinha com o abajur. Foi quando ela viu o papel dobrado, que deixava à mostra os olhos de uma moça. Olhos que ela conhecia muito bem. Rapidamente, e sem saber o motivo, colocou-o no bolso da jaqueta. 
Aurora voltou com o copo de água, oferecendo-o à Maria. Quando ela terminou de beber, deixou um gole que foi bebido por Aurora. Respirando fundo, Aurora olhou para Maria. Ela olhou para ela também, sorrindo tristemente, mas já bem mais calma. 

-Aurora, você o ama?

Aurora encolheu os ombros:

-Em primeiro lugar, eu não quis que nada disso acontecesse, e nem ele, mas foi mais forte que nós. 
-Eu sei... e eu compreendo muito bem o Pedro. E compreendo qualquer um que se sentisse de repente tão apaixonado por você. Porque... eu...

Aurora interrompeu-a:

-Mas respondendo à sua pergunta: não, eu não amo o Pedro, e compreendi isso agora mesmo. Foi apenas uma paixão passageira. Na verdade, eu amo o João. Sempre amei, e sempre amarei, eu acho.

O coração de Maria murchou mais um pouco ao ouvir aquelas palavras.

-E você, Maria? Como vocês vão ficar depois disso?

-Bem, nós rompemos lá fora. Acho que fizemos a coisa certa, sabe? Eu não o amava mais. Acho que nunca amei, somente senti-me segura ao lado dele, que se aproximou de mim após a morte de meus pais em um acidente. Ele foi um amor... Ficamos amigos, e começamos a namorar. Foi uma consequência, nenhum dos dois parou para pensar se queria realmente que as coisas caminhassem daquela forma. Foi acontecendo. 

-Então... 

-Então acho que está tudo bem, afinal de contas. Mas penso que o Pedro está muito apaixonado por você.

-Eu não teria tanta certeza assim.

Enquanto aquela conversa acontecia, Pedro dirigia seu carro e pensava na pergunta de Maria: ele amava Aurora?

Pensou muito. Pensou intensamente no que ele sentira quando estava com Aurora. Achou que nunca sentira nada igual, com nenhuma outra garota. Seria o fascínio de envolver-se com alguém um pouco mais velho que ele, uma mulher misteriosa, que guardava um segredo? Pensou que nem sequer a achava muito bonita; mas o magnetismo e a sensualidade que emanavam dela, eram algo que ele nunca tinha visto em outra mulher. Uma resposta importante, ele já possuía: não amava Maria. Estava feliz por ter descoberto aquilo antes que ambos arruinassem suas vidas. 

Ele sabia – sentia – que Aurora não era para ele, e que ela não o amava. Era apenas uma mulher solitária e apaixonada, que precisava satisfazer seus desejos, contidos há muito tempo. A química entre eles tinha sido perfeita, mas era apenas um rastilho de pólvora que logo acabaria. Teve sua resposta: embora estivesse loucamente apaixonado por ela, não via a si mesmo passando o resto de sua vida ao lado de Aurora.

Naquele momento, tomou uma importante decisão: aceitaria aquela oferta de emprego em outra cidade. Fez uma curva na estrada, que o levou por um novo caminho, e nunca mais voltou . Ainda sentia o cheiro daquele corpo, mas soube que logo a esqueceria. Restava-lhe a curiosidade: quem era ela? Por que estava se escondendo ali, naquela pequena cidade, quando tinha tantos potenciais? Abriu o porta-luvas, onde ainda guardava um dos cartazes que havia recolhido dos quadros de aviso da faculdade. Aurora o fitava na fotografia.




sábado, 25 de outubro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte VII





A Casa do Caminho de Pedra – parte VII

Na segunda feira de manhã, antes das seis, Aurora despertou com batidas à porta. O dia ainda estava semi-escurecido.  Ela já sabia quem era, e foi abrir. Enquanto caminhava até a porta, ela ajeitou os cabelos soltos com as mãos, e ao passar pelo espelho do corredor, viu que tinha uma aparência selvagem. Mal abriu a porta, ainda sonolenta,  Pedro saltou sobre ela como um lobo faminto, e ambos foram para sua cama ainda quente. Ficaram ali durante muito tempo, e quando deu por si, Aurora lembrou-se que logo deveria encontrar Maria para ir à cidade comprar um celular. Já eram quase nove horas!

-Pedro você precisa ir embora agora. AGORA!

Pedro, cansado e ainda semi-adormecido nos braços dela, murmurou:

-Hum? Por que? O que deu em você, Aurora?

Ela o sacudiu com força:

-Maria está vindo para cá! Você precisa sair. Nós combinamos de ir juntas à cidade. 

Ao ouvir aquilo, ele deu um salto, e começou a vestir-se apressadamente. Aurora fez o mesmo. Passou uma escova nos cabelos, prendendo-os em seu habitual coque, lavou o rosto e enquanto escovava os dentes, escolheu um vestido para sair. Rezava para que a amiga se atrasasse, como era hábito seu; não queria magoá-la. Decidiu que terminaria tudo com Pedro naquele mesmo dia. Quando estavam ambos quase vestidos, pararam ofegantes diante um do outro. Seus olhares compreenderam que aquilo não poderia continuar.
Beijaram-se apaixonadamente.

O desejo tomou conta de ambos novamente, e tiveram que fazer um enorme esforço para se separarem. Ele  beijou-a novamente e saiu.
Ela olhou em volta, tentando encontrar traços da presença dele na casa. Arrumou a cama, esticando bem os lençóis. Espirrou um spray perfumado no ar para apagar o perfume dele completamente. Ainda sentia o calor das mãos dele sobre certas partes de seu corpo. Sentia-se péssima fazendo aquilo, mas era o que lhe restava fazer.

Enquanto isso, Pedro caminhava para o carro, ajeitando os cabelos com as mãos e colocando a camisa para dentro da calça. Foi quando ele viu Maria parada junto ao carro, de braços cruzados. Seu rosto estava lívido, mas ela não estava chorando. Não conseguiu dizer nada; apenas parou diante dela. As palavras eram inúteis. Foi ela quem falou primeiro:

- Eu... eu e Aurora combinamos de ... 
-Eu sei, Maria. Eu sei... olha, eu sinto muito... isso...
-Por favor, Pedro, não diga nada. Ela... eu... 

Ele tentou abraçá-la, mas ela desvencilhou-se dele, empurrando-o suavemente:

-Não faça isso. Por favor. Só me responda uma coisa: foi só sexo? 

Ele ficou ali parado, olhando para o chão coberto de folhas úmidas. Não sabia responder. Seus sentimentos estavam embaralhados. Achava que não tinha sido apenas sexo. Admitiu que com Maria nunca tinha sido tão intenso como era quando estava com Aurora. Davam-se bem, eram bons amigos e partilhavam dos mesmos gostos, mas a paixão não acendia. Faziam um amor morno. Ele a amava. Mas não estava apaixonado por ela, nunca estivera. Mas o que sentia por Aurora? Sua cabeça estava a ponto de explodir!

Dentro da casa, Aurora sentiu, de repente, um forte calafrio, e teve que se segurar nas costas da cadeira para não cair. Compreendeu que Maria sabia de tudo. Seria melhor ir até lá fora, onde sabia que ela e Pedro conversavam? Achou melhor não ir. Era um momento que pertencia aos dois. Sentiu que Maria não a odiava. Estava magoada, mas não a odiava. Estava tão confusa quanto ela e Pedro. Ela mesma não sabia se ainda amava o noivo. Todos aqueles sentimentos e pensamentos de Maria chegavam até ela como se entrassem pela janela, trazidos pelo vento. Era como se a amiga lhe falasse, mas sem usar palavras. Sentiu que Maria também sentia uma forte atração por ela, e aquele pensamento foi uma grande surpresa; se ela sentia algum ciúme, era mais dela que de Pedro. E também compreendeu que a amiga tentava lutar contra aquele sentimento também estranho para ela própria, e não o admitia.

Aurora também estava confusa: seria igual à sua mãe? Seria realmente a mulher lasciva que Helena, a mãe de Eduardo, a acusara de ser, aos gritos, em uma das sessões do julgamento do filho? Sempre achara que era diferente! O que sentia por Pedro? Mas... esquecera-se do amor de João?

Lá fora, Maria e Pedro estavam parados diante um do outro. Não se olhavam. Ambos olhavam para o chão. Um passarinho chamou-os de volta à realidade, cantado alto em uma árvore próxima. De repente, ele entrou no carro, chamando-a para entrar junto com ele, mas ela balançou a cabeça negativamente, fazendo sinal para que ele fosse embora. Ele insistiu, mas ela disse-lhe para ir embora. 

-Eu estou bem , Pedro, não se preocupe, não vou fazer nenhuma bobagem. Mas preciso ter uma conversa com Aurora.

-Mas... e nós?...

-Não há mais “nós”.

Ao ouvir aquilo, Pedro ainda ficou olhando um pouco enquanto ela se dirigia para a porta da casa, e depois, dando partida no carro, foi embora cantando pneus no caminho de pedras.



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A casa do Caminho de Pedras - parte VI






Era manhã de sábado. Aurora despertava em sua casa, e as palavras que sua mãe dissera-lhe em seu sonho ainda ecoavam em seus ouvidos? “Ele virá ver você hoje! Cuidado...” Pulou da cama, e vestiu-se depressa com as mesmas roupas que usara no dia anterior, e que ainda estavam penduradas sobre as costas da cadeira. Começou a preparar o café da manhã, após acender o fogão de lenha. Estava servindo-se de uma fatia que sobrara do bolo de nozes, quando ouviu o ruído de um motor de carro e logo depois alguém bateu à sua porta. Já sabia quem era. Hesitou: deveria abrir?

Respirou fundo antes de tomar sua decisão, as palavras da mãe em sua cabeça: “Cuidado!” Mas lembrou-se de que sua própria mãe jamais fora cuidadosa; como poderia querer que ela fosse? “Sou uma mulher adulta,” pensou, enquanto caminhava até a porta.
Ao abri-la, lá estava Pedro. Trazia um pequeno embrulho consigo, que estendeu para ela ao cumprimentá-la com um beijo em cada face. Imediatamente, ela perguntou por sua amiga Maria, e ele respondeu:

-Deixei-a em casa, ainda está dormindo. Fui até a padaria comprar pão, e como achei estes brioches fresquinhos, pensei em trazê-los para você. O cheiro estava irresistível!

Aurora pensou que a padaria ficava a pelo menos quinze minutos de distância de carro, e achou que aquele não era o verdadeiro motivo de Pedro aparecer à sua porta às sete horas de uma manhã de sábado.  Agradeceu, mas sem convidá-lo para entrar:

-Muito obrigada, Pedro. Foi muita gentileza sua.

Ele sorriu, encolhendo os ombros, as mãos nos bolsos da calça. Parecia um menino travesso, ela pensou.

-Não vai me convidar para um café?

Ela o olhou nos olhos antes de responder:
-Olha, Pedro, eu realmente não acho adequado. Maria não está aqui, e logo terei que ir para a feira.

Ele riu, desconcertado:

-Eu sei! Posso dar-lhe uma carona!
-Muito grata, mas eu sempre vou de carroça. Você sabe, tenho um cavalo. Além disso, os produtos já estão todos arrumados na carroça, basta atrelar o cavalo. Daria muito trabalho para colocar tudo no carro.

Ele assentiu, concordando, e insistiu:

-Mas e o café? Posso entrar um pouco?

Ela olhou para ele, como se examinasse seus pensamentos. Achou que era seguro, e fez sinal para que ele entrasse.

-Tudo bem, mas não posso demorar... como eu já disse, preciso ir.
-Está com medo de mim, Aurora? Ora, pelo amor de Deus, não vou agarrar você... sou o noivo de sua amiga, lembra?

Ela sentiu o tom irônico na voz dele. Ignorou-o.

-Sente-se. Vou pegar uma xícara para você. Maria sabe que você está a aqui?
-Mas é claro! Deixei-lhe um bilhete junto com o pão, dizendo que vinha ver você. 

Ela achou que aquilo não fazia sentido, e que aquela situação estava se tornando cada vez mais estranha. Ao mesmo tempo, notou o quanto Pedro era bonito, e gostou do perfume que ele usava – reconheceu o mesmo perfume que João costumava usar, e seu coração apertou-se de saudades. Ele notou sua súbita tristeza:

-Algum problema?

Ela serviu o café, e dividiu com ele sua fatia de bolo. Não respondeu.

-Muito bem, Pedro. O que o trouxe até aqui? Você mal me conhece... tem que admitir que esta situação está um pouco estranha, já que só nos vimos uma única vez e você é o namorado de minha melhor – ou seja – de minha única amiga.
-Bem, Aurora, só nos vimos uma única vez, mas ficamos juntos o dia inteiro... e você tem razão, me desculpe. Eu não vim aqui para dar-lhe uma carona ou trazer-lhe brioches... nem pelo café, embora ele seja muito bom. E Maria não tem ideia de onde eu estou. Eu vou dizer a verdade.

Ela o encarou, resoluta. Sentia que havia uma energia forte emanando deles que os atraía um ao outro, mas que não era aquele o motivo da visita de Pedro.

-Como você sabe, eu estou no final de meu curso de Direito. Há um quadro de avisos na faculdade, onde as pessoas colocam ofertas de emprego, anúncios resultados de provas e outras coisas... você sabe.
-Sim!
-Pois é. Vi uma fotografia lá, entre todos aqueles papéis, que me chamou a atenção.

Ela ficou subitamente alarmada, e largou a xícara de café, derramando um pouco sobre o pires e a toalha de mesa, sentindo o rosto corar. Ficou olhando para ele, as mãos começando a suar. Ele concluiu:
-Há uma fotografia sua lá, e um número de telefone. Alguém está procurando por você.

Dizendo aquilo, ele tirou um papel dobrado do bolso, entregando-o a ela. Apreensiva e curiosa ao mesmo tempo, ela abriu-o devagar. Estava escrito, sob uma fotografia de seu rosto – o cabelo estava um pouco mais curto, mas a fisionomia era a dela, e era impossível tentar convencê-lo do contrário. Lembrou-se daquele dia, onde vestira aquelas roupas formais pela última vez. Fora no julgamento do assassino de sua mãe. A fotografia tinha sido tirada sem o seu conhecimento naquele mesmo dia:
“Você viu esta mulher? Ligue para...” e um número de telefone, que ela não conhecia. Olhou para ele, o coração dando saltos no peito:

-Havia mais algum cartaz?

Ele tranquilizou-a:

-Sim, mas não se preocupe. Retirei-os todos. Rasguei e joguei fora. Não ficou nenhum. 

Aurora começou a chorar, e Pedro aproximou sua cadeira da dela, passando um braço amigavelmente em volta de seus ombros. Ela recostou a cabeça no ombro dele, deixando-se levar pela sensação agradável de estar sendo confortada em uma hora tão difícil. Sentiu-se uma tola, ao achar que ele estava ali por outro motivo. Acalmou seu choro, enxugando as lágrimas. Foi quando ele gentilmente ergueu seu rosto em direção ao dele, e ela sentiu que o magnetismo entre eles era muito forte, ao olhá-lo dentro dos olhos daquela maneira, seus rostos e lábios tão próximos. Deixou-se ficar assim por alguns instantes, mas lembrou-se de Maria, e num esforço, separou-se dele. Notou que ele respirava mais rapidamente, e seus olhos estavam marejados e apaixonados. Ergueu-se da cadeira, indo postar-se o mais longe possível que podia dele na pequena cozinha. Pedro não a seguiu, mas tomou um grande gole de café não adoçado antes de falar novamente:

-Por que estão procurando você, Aurora? Você... fez alguma coisa errada? Você está fugindo de quem?

Ela hesitou. Poderia confiar nele? Achou que não tinha muitas opções agora...

-Você contou a Maria sobre mim?

Ele balançou a cabeça negativamente. 

-Achei que se você quisesse que ela soubesse, já teria contado você mesma.
Ela admirou a atitude dele:

-Muito obrigada, Pedro, e me desculpe porque... quando você chegou, eu pensei que estava aqui por outro motivo, imagine... mas eu prometo a você que não sou uma mulher perigosa, e nem fiz nada de errado. Estou fugindo sim, de pessoas que desejam me fazer mal. Pessoas que assassinaram minha mãe. 

Dizendo aquilo, ela começou a chorar muito, e Pedro correu até ela, abraçando-a. Ele sentia o perfume dos cabelos dela, e o seu corpo muito quente que tremia entre seus braços. Esperou que ela se acalmasse, e tentou novamente conter a forte atração que sentia por ela. Ela mesma sentia-se muito frágil, vulnerável, e ter braços fortes segurando-a naquele momento foi crucial para explicar a si mesma, mais tarde, o que aconteceu entre os dois naquela casa, naquela manhã. Foi como um fogo que lastrou de repente entre eles, e que eles não puderam conter. Em questão de minutos, saciaram sua sede um do outro. Enquanto tudo acontecia, nenhum dos dois pensou em nada, a não ser no que estavam vivendo naquele momento. 

Quando tudo terminou, eles endireitaram suas roupas, sem conseguirem olhar nos olhos um do outro. Ele caminhou até a porta e saiu sem olhar para trás. Ela deitou-se na cama, sentindo-se febril, e não foi à feira naquele dia.

No final da tarde, Maria bateu à porta de sua casa. Estava sozinha. Pedro não estava com ela. Ela foi atender. Ao vê-la, Maria alarmou-se:

-Aurora, você parece doente... por que não tem um telefone? Você precisa de um telefone num lugar desses. Estava tão preocupada, você não apareceu na feira hoje... andou chorando?

-Não, apenas acho que peguei uma gripe, e não me sinto muito bem...
Encaminhou-se novamente para a cama. Deitou-se, e Maria preparou-lhe um chá com biscoitos que achou na cozinha. Quando foi procurar pelas xícaras, reparou que na mesa da cozinha ainda estavam duas xícaras do café da manhã; sua amiga tivera um convidado! Quem seria?
-Aposto que não comeu nada hoje. Tome; beba isto.
-Obrigada, amiga.

Maria indagou, casualmente:

-Vejo que há duas xícaras sobe a mesa da cozinha. Alguém veio vê-la hoje de manhã?

Aurora sentiu o rosto corar novamente. Era a segunda vez naquele dia. Sentia-se péssima por ter dormido com o noivo de sua amiga! Detestava mentiras, mas pegou-se mentindo para ela, o que a fez sentir-se ainda pior:

-Não... uma das xícaras é do café de ontem. Ainda não lavei.
Maria achou estranha aquela resposta, pois sabia do cuidado e do exagero com a limpeza que sua amiga tinha. Não lavar as xícaras? Não era típico de Aurora! Concluiu que ela tivera uma visita e não queria dizer de quem se tratava, e que a tal visita causara-lhe aquele mau estado de saúde. Magoada, comentou:

-Hum... sei... você pode confiar em mim, Aurora. Pensei que já soubesse disso. 

Aurora preferiu fingir que não compreendera o comentário da amiga, e disse, mudando de assunto:
-Você tem razão, talvez seja melhor eu comprar um telefone celular. Farei isso na segunda feira. Você me ajuda a escolher?

Maria assentiu com a cabeça. Decidiu que seria melhor passar a noite com a amiga. Aurora tentou dissuadi-la:
-Não, imagine, eu já estou melhorando... e além disso, hoje é seu dia de ficar com Pedro. Ele vai embora na segunda de manhã.  A noite de sábado é de vocês. 

Vá embora, amiga, eu ficarei bem!

Maria pareceu triste, o que fez com que Aurora perguntasse:

-Algum problema, Maria?

-Não sei. Hoje de manhã Pedro saiu para comprar pão, e demorou bastante, quase duas horas. Disse que passou pelo rio e viu uns garotos pescando, e ficou conversando com eles. Nós sempre fazemos amor no sábado de manhã quando ele chega, mas hoje ele não tocou em mim. Está frio, distante... parece preocupado e pensativo.

-Bem, talvez ele esteja com algum problema...

Maria olhou-a de modo diferente de repente, e ficou em silêncio. Aurora sentiu-se gelar. Era como se Maria estivesse fazendo uma associação entre o comportamento de Pedro e as xícaras sobre a mesa da cozinha... mas ela varreu aqueles pensamentos para longe; como ela poderia desconfiar?
Maria realmente teve um lampejo sobre as xícaras, mas achou que estava imaginando coisas. Encolheu os ombros, sorrindo forçadamente:

-É... talvez ele tenha algum problema, afinal está no final do curso. Pode estar preocupado com o que vem agora...

-Como assim?

-Ele não sabe se aceitará uma oferta de emprego que recebeu de um professor, advogado, para trabalhar em um escritório de advocacia. Ou se fica por aqui e monta seu próprio espaço. Ou se continua, faz um mestrado e começa a dar aulas... enfim, os problemas que todos enfrentamos durante o final da faculdade. E sabe, eu mesma estou preocupada.
-Por que?
-Estamos noivos há um ano, e ele disse que nos casaríamos assim que ele conseguisse um emprego.
-Bem, e qual o problema?...
-É que... sabe, se ele decidir aceitar o tal emprego, teremos que ir embora daqui. E eu amo esta cidade.
-Mais do que você o ama?

Maria não entendeu o tom da pergunta:

-Como assim?
-Bem, se você o ama de verdade, irá com ele feliz da vida!
-Mas... por que eu tenho que deixar minha casa, cidade, trabalho e amigos para seguir com ele, ou com quem quer que seja? Por que essa escolha não pode ser dele; só porque ele é o homem, e eu, a mulher?

Aurora ficou um pouco pensativa. Respondeu da melhor maneira que pôde: 

-Bem, acho que esta é uma decisão para o casal tomar juntos. Mas no fim, vocês chegarão a um acordo que beneficie a ambos, tenho certeza. Não se preocupe tanto, Maria. A vida toma seus próprios rumos.
Maria ficou meditando naquela frase: “A vida toma seus próprios rumos.” De repente, sorriu, abraçando Aurora:


-Você tem razão, estou sendo tola. Nos vemos na segunda feira? Não quer mesmo que eu fique aqui com você esta noite?
-Não, querida. Vá, e aproveite a presença de seu noivo.
-Tudo bem. Passo aqui amanhã para pegar você, lá pelas nove, depois que Pedro for embora. Ele sempre sai bem cedo para não pegar trânsito e chegar a tempo para a primeira aula.

Depois que ela saiu, Aurora levantou-se e foi ligar o gerador de energia. Já começava a escurecer. 



(continua...)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A CASA DO CAMINHO DE PEDRAS - PARTE V





A Casa do Caminho de Pedras - parte V



Bem longe daquele paraíso, Helena e seu marido, Jorge Medeiros, tomavam um drink antes do jantar. Helena sentia muita falta de seu filho, Eduardo, que tinha sido mandado para longe dela devido ao que para ela significava "um mero acidente de percurso": o assassinato de Marta Fernandes, mãe de Rúbia (ou de Aurora). Ela pensava no quão insignificantes eram aquelas duas mulheres, e no que elas representavam para a sociedade local: nada! Seu filho apenas tentara fazer justiça ao vingar-se daquelas aproveitadoras que tinham matado sua irmã Jane. A família estava destroçada para sempre, e uma daquelas ditas "bruxas" ainda estava solta pelo mundo, Deus sabe onde. Quem mais ela poderia ferir? Quais famílias seriam destroçadas, como a deles, devido à libido incontrolável daquelas mulheres? 



Sentado junto à lareira apagada, olhando fixamente para as achas empilhadas, segurando seu copo de uísque, Jorge tinha os mesmos pensamentos. Já tentara localizar Rúbia algumas vezes, a pedido da esposa, mas fora em vão. Ela tinha desaparecido. Achava inútil tentar encontrá-la; achava melhor que ambos focassem, naquele momento, em elaborar, junto a bons advogados, uma maneira de pedir um novo julgamento para seu filho Eduardo, e libertá-lo da prisão. Afinal, já se perguntara - e perguntara várias vezes à Helena - qual seria a vantagem de encontrarem Rúbia, e embora tivesse formulado a pergunta, temia a resposta que ela nunca dera claramente. Helena alegava que só gostaria de ter certeza que ela estava bem longe de sua família. Mas Jorge, conhecendo bem o temperamento forte da esposa, temia que ela estivesse planejando outra vingança.



Jorge ainda podia lembrar-se da única noite que passara naquela casa, há muitos anos, bem antes que tudo aquilo acontecesse. Ainda podia sentir nas pontas dos dedos o calor da pele de Marta naquela única noite de amor e luxúria que tiveram. Ela não negava fogo, e também não era seletiva quanto aos homens com quem dormia. E todos que a conheceram carnalmente tiveram a mesma opinião: Marta era uma mulher linda, maravilhosa e muito versada nas artes do amor e do sexo. Não tinha medo da vida e nem hesitava quando se tratava da busca do prazer. E o melhor de tudo: ela não queria nada de nenhum deles, a não ser divertir-se um pouco, e portanto, não corriam o risco de sofrerem ameaças e chantagens da parte de Marta. 



O incrível, pensava Jorge, é que apesar dos muitos amantes que tivera, Marta sempre fora respeitada por todos eles. Nenhum deles jamais conseguiu dizer uma só palavra de desabono à sua conduta, apesar de tudo. A única preocupação que eles precisavam ter em mente era que jamais se apaixonassem por ela, pois Marta não era de ninguém... e aqueles que se apaixonaram, destruíram suas vidas familiares em vão, pois ela não os aceitou; pelo contrário, censurou-os severamente! Mas tais notícias se espalhavam, e as mulheres da cidade passaram a odiá-la, apesar de ainda procurarem por seus cosméticos milagrosos e suas leituras de carta. "Assim são as mulheres", pensou Jorge.



Ergueu os olhos e deparou com Helena na mesma posição que ele, olhando para as mesmas achas apagadas, totalmente ausente. Segurava, como ele, um copo de uísque - que passara a segurar com muita frequência durante as horas mais absurdas do dia, inclusive pela manhã. Preocupava-se com ela, e com a dor que ela sentia pela ausência dos filhos. Sentia-se quase culpado por ter sido amante da mulher que causara tudo aquilo à sua família. Sua esposa Helena, antes tão alegre e elegante, que comparecia aos melhores eventos sociais sempre impecavelmente vestida, andava pela casa usando um robe antigo e chinelos, e os cabelos, antes tão bem arrumados, desgrenhados e grisalhos. As unhas que costumavam ser brilhantes e esmaltadas, eram agora cortadas bem curtas e sem esmalte. Não aceitava mais convites das amigas para sair ou comparecer a eventos. Passava o dia todo em casa, e muitas vezes, ele a encontrava chorando. Apesar dos remédios receitados pelo médico, Helena muitas vezes sofria de insônia, e nessas ocasiões, ele a escutava andar pela casa chamando o nome da filha morta. Certa vez, encontrou-a conversando com alguém que, segundo ela, estava sentada no sofá. Ao perguntar-lhe com quem ela estava falando, Helena respondeu: "Não está vendo? É a nossa filha Jane! Não está linda?"



Jorge acreditou que seria efeito da medicação. Levou-a para a cama, e como ela pedira, disse 'boa noite' à filha morta. A partir daquela noite, Helena começou a beber mais. Muitas vezes, bebia até dormir. Trancava-se no escritório com o álbum de fotografias dos filhos e bebia até adormecer. Jorge escutava seus soluços, mas ao bater à porta, ela só pedia que ele a deixasse em paz. Os empregados da casa tentavam cuidar dela o melhor possível, e entravam no escritório usando a chave mestra para levá-la para o quarto depois que ela dormia. Todos tinham muita pena de sua esposa, mas Jorge sabia que eles comentavam pelos cantos, e que muitos na cidade já sabiam do estado no qual ela se encontrava. Ele às vezes notava que seus amigos mudavam de assunto quando ele chegava, se entreolhando. Pigarreavam, e o acolhiam mais efusivamente que o normal. 



Sua vida, antes tão maravilhosa e movimentada, reduzira-se àquilo: solidão, silêncio, lágrimas. Não tinha mais a presença alegre dos filhos pela casa. naquelas horas, ele também odiava Marta, mas odiava ainda mais ao Dr. João, amigo de Rúbia, que tomara o caso da morte da mãe de sua amiga como se fosse pessoal caso e condenara seu filho. Seus amigos diziam que ele apenas fizera seu trabalho, mas Jorge sentia ânsias de vômito toda vez que passava pela casa de João ou encontrava com ele casualmente. Tentava conter-se; afinal, já havia problemas demais em sua vida. Os dois cumprimentavam-se formalmente, e ele notava uma certa culpa nos olhos do rapaz.



Perdido naqueles pensamentos, Jorge ouviu a empregada chamar para o jantar. Levantou-se, e segurando a mão da esposa, conduziu-a até a mesa com ele. Ajudou-a a sentar-se e foi tomar o seu lugar em frente a ela. Via que ela apenas brincava com a comida. 



-Helena, você precisa comer alguma coisa.



Ao ouvir aquilo, ela sorriu tristemente, e levou uma pequena garfada à boca, que mastigou mais que o necessário e com grande dificuldade, engoliu. Tomou um grande gole de bebida alcoólica e colocou outra pequena garfada na boca. Jorge observou:



-Você anda bebendo demais. Precisa parar!

Helena deixou cair uma lágrima e deu um longo suspiro antes de responder:

-E o que me resta ainda? Me diga, Jorge...



Ele largou a comida, e foi sentar-se ao lado dela. Tomou-lhe o garfo das mãos, e começou a alimentá-la ele mesmo. Ela demorava a engolir, mas ele conseguiu fazer com que ela comesse um pouco. Ao mesmo tempo, ele tirou-lhe o copo de uísque e fez com que ela tomasse um pouco de suco. 

Depois, ajudou-a a trocar-se para dormir, deu-lhe os remédios e colocou-a na cama, cobrindo-a. Quando voltou para jantar, viu que a comida esfriara, e pediu à empregada que esquentasse um prato para ele mesmo. Mas depois que ela o serviu, não conseguiu comer mais. Pegou seu casaco e saiu pela noite, caminhando sem rumo.




quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Casa do Caminho de Pedras - Parte IV



 




A partir daquele dia em que Maria visitou-a, Aurora decidiu abrir-se um pouco mais, e ambas tornaram-se grandes amigas. Maria também vivia sozinha, em um pequeno apartamento em um sobrado na cidade. O prédio pertencera aos seus pais, e no térreo, que ela alugava,  funcionava uma padaria. Ela transformara um dos quartos em um estúdio onde confeccionava suas peças de artesanato, e assim ia vivendo. As duas novas amigas passaram a frequentar a casa uma da outra diariamente, e Aurora sentia-se grata pela presença constante de Maria, após tanto tempo de solidão. Ela sabia que poderia confiar nela. Afinal de contas, sua própria mãe o dissera de uma forma bastante direta!

Maria tinha um namorado, Pedro, que estava terminando a faculdade de direito, e que por isso morava em outra cidade. Ele vinha apenas nos finais de semana, e então as duas amigas ficavam separadas para que Maria e Pedro pudessem ficar juntos e a sós. E durante os finais de semana, Aurora cuidava de suas coisas, tentando driblar o sentimento de solidão. Contentava-se com apenas uma amiga, pois sabia que não podia deixar que seu nome ou suas atividades ficassem conhecidos demais, ou eles a encontrariam... quando fazia alguma leitura de cartas, era sob a condição de que o consulente mantivesse segredo absoluto de suas atividades, e como seus poucos clientes gostassem muito dela e não quisessem perder a graça de seus serviços, até aquele momento ela tinha conseguido manter sua atividade quase incógnita. Não cobrava pelas leituras; acreditava no que sua mãe lhe ensinara (mas jamais cumprira): "Dê de graça o que de graça recebeste." Mas mesmo assim, Aurora recebia muitos presentes, que estavam espalhados pela casa.

Sua amizade com Maria era baseada em muito respeito e confiança, e ela contava-lhe apenas o que queria contar. Por exemplo: contara-lhe que deixara alguém na cidade de onde viera, e as razões porque o amor deles era impossível. Contara sobre a morte da mãe, mas não sobre as suas circunstâncias, e deixara a amiga saber que não gostaria que soubessem que ela estava ali, mas não revelara os motivos. Nem mencionara sua verdadeira identidade ou seu verdadeiro nome. Maria aceitava o que a amiga lhe revelava sem mais indagações. Sabia que Aurora precisava de tempo para confiar totalmente nela, e que o fato de ter partilhado pelo menos parte de sua história com ela já era uma grande prova de confiança. Maria sabia sobre os dons paranormais de Aurora, mas prometera não falar sobre eles com ninguém. 

Em um certo domingo, Maria achou que já era hora de apresentar seu noivo Pedro à sua melhor amiga. De manhã cedo, enquanto Aurora tomava o café da manhã, ela chegou à casinha na floresta de mãos dadas com o noivo. Aurora ficou muito feliz em conhecê-lo, e logo convidou-os a entrar e partilhar de sua mesa, onde havia um delicioso bolo de nozes que ela acabara de assar, e um bule de café quente e forte. Colocou mais duas xícaras à mesa, e todos comeram felizes.

Pedro estava fascinado pelo sorriso de Aurora. Observava cada gesto seu, e pensava que apesar da moça ter uma beleza simples, que precisava ser descoberta aos poucos, seu charme e magnetismo pessoal eram muito grandes. A voz da moça parecia música aos seus ouvidos. E mais encantado ainda ele ficou quando ela, desaparecendo pelo corredor, voltou trazendo um violão e, para surpresa de ambos, começou a tocá-lo e cantar uma antiga canção popular. Nem mesmo Maria sabia daquele dom da amiga! O casal ficou ouvindo-a tocar, hipnotizados. 

Enquanto ela cantava, Pedro percorria com os olhos  os pés descalços de Aurora, as unhas pintadas de vermelho, a correntinha de ouro no tornozelo esquerdo, a saia de tecido leve caindo suavemente sobre o contorno de suas pernas. Deteve-se entre as protuberâncias arredondadas levemente apertadas contra o corpete branco rendado, os cabelos presos em um coque desfiado, a pele levemente rosada das maçãs de seu rosto. Apertava com força a mão de Maria, como se aquele gesto fosse impedi-lo de pensar nas coisas que estava pensando que gostaria de fazer com sua amiga.

A luz da manhã entrava pela janela, filtrando-se por entre as copas das árvores, e ia incidir sobre os olhos de Aurora, dando-lhes uma aparência mágica, como se fossem duas bolinhas de vidro brilhante e claro. Até mesmo Maria estava fascinada pela amiga.

Quando ela finalmente silenciou seu canto, colocando o violão encostado à parede da sala, os dois pareciam em transe, olhando-a em silêncio; finalmente, após ela pigarrear um tanto sem jeito, o casal começou a aplaudi-la, e Maria, com lágrimas nos olhos, disse:

-Eu nem sabia que você tocava violão e cantava! Nossa, foi maravilhoso! Você deveria estar em um palco! Não concorda comigo, Pedro?

Ele gaguejou, tentando recuperar sua naturalidade:

-É claro! Aurora, você toca e canta bem demais! E consegue passar tanta emoção ao que faz... foi... muito bom, lindo mesmo...

Beijando o rosto do seu noivo, Maria acrescentou, enquanto Aurora agradecia com um gesto de cabeça e um sorriso:

-Eu não te disse que ela era absolutamente especial? E este é apenas um de seus dons!

-Hum... nossa, eu gostaria de saber quais são os outros!

Naquele momento, fez-se um silêncio embaraçoso, e Maria percebeu que tinha falado demais; para consertar a situação, sugeriu:

-Por que não vamos todos nadar? Está uma manhã linda e ensolarada lá fora! 

Dizendo isso, enquanto Aurora ia vestir um maiô, o casal ficou sozinho esperando por ela, sentados nos degraus da varanda. A manhã clara, ensolarada  e perfumada pelo jasmineiro plantado por Aurora , que se entrelaçava entre os caibros da varanda, despejando suas folhas e flores pelo telhado, fazia com que a atmosfera  parecesse carregada de magia.  

Logo Aurora juntou-se a eles, e os três foram caminhando pela mata até uma linda cachoeira próxima. O ruído das águas caindo sobre as pedras era refrescante, e a água cristalina brilhava ao toque dos raios do sol. Sentaram-se um uma grande e lisa pedra, e começaram a despir suas roupas, ficando apenas com seus trajes de banho. Pedro reparou que Aurora tinha a pele branca e perfeita, sem manchas. Imediatamente, apaixonou-se pelas suas pernas fortes e e levemente musculosas. Para tentar concentrar-se em alguma outra coisa, perguntou à Aurora:

-Aurora, Maria me disse que você estudou biologia. Por que não procura algum trabalho em sua área? Bem, me desculpe por perguntar...

Ela soltou os cabelos, que caíram como se fossem uma outra cascata negra a competir em beleza com as águas que tinham à sua frente:

-Na verdade, fiz biologia por outros motivos. Acho que não faz mais sentido... eu gosto do que faço! Adoro trabalhar na feira e vender meus produtos. E saber sobre ervas, plantas, animais... em me ajudado bastante, sabe?  Eu amo a natureza, e leio tudo o que me cai nas mãos sobre ela. 

Ele pareceu ainda mais curioso:

- Mas você poderia trabalhar fazendo pesquisas em uma universidade, por exemplo...

Maria interrompeu-o:

-Hei, deixe a minha amiga em paz! Ela faz o que gosta, só isso. Vamos dar um mergulho?

E os três pularam na água, rindo e brincando. O toque gelado fez com que Aurora se sentisse realmente viva, como já não se sentia há algum tempo. Em volta deles, o cenário era idílico: pássaros, árvores, a mata verdejante, a luz do sol, pequenos insetos e borboletas. Aquele seria um dia que ficaria na memória daqueles jovens por toda a vida. 

Quando o sol já se despedia, eles já estavam de volta à casa de Aurora, e saboreavam uma deliciosa macarronada preparada por ela. O apetite dos três era como o de lobos, pois tinham passado o dia todo na cachoeira, nadando, conversando e alimentando-se apenas das amoras silvestres que Aurora colhera por ali. 

Quando se despediram, já ao cair da noite, Pedro perguntou à Aurora, já na porta de casa, se ela não tinha medo de ficar sozinha naquele lugar tão ermo, e ela respondeu:

-Não! Adoro este lugar, amo esta casa, e dou graças todos os dias por ter podido comprá-la. A natureza sempre é uma ótima companhia. Melhor do que algumas pessoas que conheci... 

Ele notou uma sombra passando pelo rosto dela, mas seguindo as instruções que Maria lhe dera, não perguntou mais nada. Mas quando já caminhava de mãos dadas com a noiva em direção ao carro, antes de entrar, ele ainda olhou para trás, e gravou a imagem dela de pé no meio da varanda semi-escurecida e salpicada de vaga-lumes. 

Depois que eles se foram, Aurora sentiu uma súbita brisa fria envolvê-la rapidamente, e as folhas do jasmineiro tremeram à sua passagem. Sabia muito bem que Pedro sentira-se atraído por ela, e tinha muito medo do que ele poderia pensar. Não queria ferir sua amiga. Não o faria. Talvez fosse melhor, ela pensou, evitar encontrá-lo daquele dia em diante, e ela faria todo o possível para que fosse assim. 








A RUA DOS AUSENTES - Parte 12 (FINAL)

  A Rua dos Ausentes - parte 12 - Final E naquela noite, havia pessoas na Rua dos Ausentes reunidas cada qual por um propósito diferente: Al...